
Era para ser apenas mais uma noite comum em um shopping center de São Bernardo do Campo. Luzes acesas, vitrines brilhando, consumidores circulando como se o mundo fosse feito apenas de promoções e cartões de crédito. Dentro de uma joalheria, uma funcionária trabalhava. Do lado de fora, a vida seguia. Até que um homem entrou e matou a ex-companheira. O Brasil parou por algumas horas. Depois, seguiu. Como sempre.
A vítima era funcionária de uma loja da rede Vivara no Golden Square Shopping. O agressor, ex-companheiro, foi até o local onde ela trabalhava e cometeu o crime. A ocorrência foi inicialmente tratada como roubo, mas rapidamente ficou claro que se tratava de feminicídio. Após o ataque, o homem tentou tirar a própria vida. A polícia negociou rendição. Ele atirou contra si mesmo, foi socorrido e levado ao hospital. O estado de saúde não foi oficialmente detalhado. A pergunta que fica é quase cínica, vai escapar com vida.
O caso ganhou repercussão nacional. Mas sejamos francos, ele ganhou manchete porque aconteceu em São Paulo e dentro de um shopping center, esse templo moderno do consumo, onde a violência parece sempre deslocada, como se fosse proibido morrer entre vitrines e escadas rolantes. Se fosse numa periferia distante, talvez fosse apenas mais um número.
E os números são brutais. Em 2025, o Brasil registrou 1.470 feminicídios, o maior índice desde que o crime foi tipificado em 2015. A média é de quatro mulheres mortas por dia. Quatro. É como se, a cada seis horas, uma mulher fosse eliminada por alguém que um dia disse amá-la. Não é exagero retórico, é estatística oficial.
Nunca se matou tanto mulheres no país desde que o feminicídio passou a ser contado como tal. A escalada é tão evidente que já não cabe na desculpa do acaso. Não se trata de casos isolados, trata-se de padrão. A violência contra a mulher cresce em ameaças, perseguições, espancamentos, estrangulamentos. O feminicídio é apenas o último capítulo de uma sequência de sinais ignorados.
O Brasil parece ter normalizado o roteiro. Homem não aceita fim do relacionamento. Homem confunde afeto com posse. Homem transforma rejeição em sentença de morte. É uma lógica primitiva operando em plena era digital. Como se o aplicativo de mensagens tivesse evoluído, mas a mentalidade permanecesse na idade da pedra.
Comparado a outros tipos de crime, o feminicídio tem uma característica cruel, ele nasce dentro de casa, no círculo íntimo, no ambiente que deveria ser de proteção. Não é bala perdida, é alvo conhecido. Não é assalto aleatório, é execução motivada por controle e ciúme. É a face mais explícita de uma cultura que ainda ensina que a mulher pertence a alguém.
Há leis, há campanhas, há delegacias especializadas. E ainda assim os números sobem. Isso revela uma verdade incômoda, legislação sem mudança cultural é como alarme sem bateria, faz barulho por um tempo e depois silencia. A estrutura jurídica avançou, mas a mentalidade social anda a passos curtos.
O caso do shopping não é exceção, é espelho. Espelho de um país que consome tecnologia de ponta, mas convive com mentalidades arcaicas. Espelho de uma sociedade que se indigna por alguns dias e depois volta às vitrines. A violência só escandaliza quando invade o espaço climatizado do consumo.
A pergunta não é apenas quem era a vítima ou se o agressor sobreviverá. A pergunta é por que continuamos produzindo homens que não suportam a autonomia feminina. Enquanto essa resposta não for enfrentada com seriedade, seguiremos contando quatro por dia. E cada novo caso continuará parecendo surpresa, quando na verdade é repetição anunciada.
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