
O desperdício no serviço público brasileiro não é um acidente de percurso, é uma cicatriz histórica que atravessa governos como uma herança mal resolvida. Quando esse desperdício ocorre na saúde, porém, ele deixa de ser apenas um número contábil e se transforma em algo mais grave: uma estatística que respira, que adoece e que pode morrer. Em 2025, o Ministério da Saúde incinerou R$ 108,4 milhões em vacinas, medicamentos e insumos. É como se hospitais inteiros fossem reduzidos a cinzas antes mesmo de abrir as portas.
O dado impressiona, mas o detalhe inquieta ainda mais. Desse total, 17,1%, o equivalente a R$ 18,5 milhões, estava dentro do prazo de validade. Não eram produtos vencidos, imprestáveis ou contaminados. Eram insumos aptos ao uso. Entre eles, medicamentos de altíssimo custo, como anticorpos monoclonais utilizados no tratamento de câncer, cujo valor unitário ultrapassa o preço de um automóvel popular. É como se ambulâncias fossem compradas e abandonadas com o tanque cheio.
A pasta afirma que a taxa de incineração correspondeu a 1,48% do estoque e que a meta é reduzi-la para 1%. Percentualmente, pode parecer pouco. Mas quando se converte percentual em vidas potenciais, a métrica muda de escala. Um por cento, na saúde pública, pode representar milhares de tratamentos interrompidos, consultas adiadas, imunizações não realizadas. Em medicina, uma pequena dose faz diferença. Em gestão, um pequeno erro pode ser fatal.
Nos três primeiros anos do atual governo, foram incinerados cerca de R$ 2 bilhões em vacinas, medicamentos e insumos, volume 3,3 vezes superior ao total descartado em todo o mandato anterior. A comparação é politicamente sensível e precisa ser contextualizada por fatores como pandemia, reestruturação de estoques e mudanças epidemiológicas. Ainda assim, o salto para o ápice de R$ 1,3 bilhão em 2023 revela um problema estrutural que transcende narrativas partidárias. Não se trata apenas de quem governa, mas de como se governa.
As justificativas oficiais incluem flutuações de demanda, alterações nos protocolos clínicos, judicialização, mudanças no cenário epidemiológico e avarias. São razões técnicas plausíveis. Mas, reunidas, elas soam como sintomas de uma engrenagem que gira desalinhada. Comprar além do necessário é desperdício. Comprar sem previsão logística é imprudência. Comprar por força judicial sem integração sistêmica é improviso institucionalizado.
A judicialização da saúde é um capítulo à parte. Medicamentos adquiridos por decisão judicial retornam ao estoque quando o paciente falece, muda de tratamento ou obtém o produto por outro ente federativo. Pela regulação sanitária, não podem ser redistribuídos. O resultado é paradoxal: o Estado compra para salvar uma vida e, impedido de reaproveitar, assiste ao produto virar fumaça. É como se a lei, criada para proteger, acabasse por imobilizar.
Há também a dimensão da negligência operacional. Falhas de armazenamento, controle inadequado de temperatura, comunicação deficiente entre União, estados e municípios. A Controladoria-Geral da União apontou descontrole na aquisição e no fornecimento. Recomendou limites aceitáveis de perdas, aprimoramento de sistemas, monitoramento ampliado, estudos logísticos. Em outras palavras, pediu o básico: planejamento, governança, integração. Elementos que deveriam ser o esqueleto da política pública, não sua promessa futura.
O Ministério da Saúde sustenta que não cabe falar em desperdício quando há ressarcimento contratual e cumprimento das normas sanitárias. Argumenta que modernizou sistemas, criou sala de situação, adotou modelos preditivos e entregas parceladas. São avanços relevantes, se plenamente implementados. Mas ressarcir o erário não ressuscita a oportunidade perdida. A vida não opera por estorno contábil.
No setor privado, estoque parado é prejuízo. No setor público de saúde, estoque descartado pode ser sinônimo de omissão indireta. Cada vacina incinerada é uma proteção que deixou de existir. Cada medicamento queimado é um tratamento que poderia ter sido antecipado. O desperdício, aqui, é duplamente nocivo: drena recursos e compromete o bem mais precioso do cidadão, que é a própria existência.
É preciso perguntar se o problema é apenas técnico ou também cultural. A cultura do “compra-se primeiro, ajusta-se depois” parece ainda sobreviver. Falta planejamento fino baseado em dados epidemiológicos atualizados? Falta coordenação federativa? Faltam campanhas para garantir adesão às vacinas adquiridas? Ou falta, sobretudo, responsabilidade individualizada, com consequências claras para erros reiterados?
A saúde pública brasileira é comparável a um navio de grande porte. Não pode mudar de direção com brusquidão, mas também não pode navegar à deriva. Se a taxa de incineração cair para 1% em 2026, como prometido, será um avanço. Mas o desafio não é apenas reduzir o percentual. É transformar a lógica que permite que milhões em insumos se tornem cinzas enquanto filas persistem.
Desperdício na saúde não é apenas falha administrativa. É uma contradição moral. Em um país onde pacientes aguardam cirurgias, onde municípios enfrentam surtos e onde a prevenção ainda é desigual, queimar medicamentos é como assistir a um incêndio com água disponível e optar por não usá-la. A pergunta que permanece é simples e incômoda: o Brasil quer apenas administrar perdas ou finalmente impedir que elas aconteçam?
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