
Passeando pelas ruas impecáveis de Haia, capital administrativa dos Países Baixos, decidi utilizar o VLT, eficiente, pontual, integrado à rotina urbana. Em uma das estações, chamou-me a atenção um homem jovem, bem vestido, discreto, que entrou no vagão levando sua bicicleta. Não a largava por nada.
Para um brasileiro, especialmente para quem vem do Nordeste, aquela cena era quase improvável. Aproximei-me e perguntei se era comum embarcar com bicicleta. Ele respondeu com naturalidade: sim. Disse que, embora tivesse carro, preferia o transporte público. Era mais prático, mais barato, mais racional.
Perguntei, então, em que trabalhava.
Respondeu-me com mais simplicidade ainda: sou deputado federal. Estava a caminho da Câmara Baixa holandesa para mais um dia de trabalho.
A simplicidade da resposta foi desconcertante. Não havia escolta, não havia aparato, não havia distinção entre “autoridade” e cidadão comum. A política ali parecia extensão da vida ordinária, não um pedestal.
Agradeci pela cordialidade e, constrangido, confessei que aquela postura seria praticamente inimaginável em meu país.
O episódio deixou de ser mera anedota de viagem. Tornou-se símbolo de um abismo civilizatório. Em algumas nações, a política é exercício de sobriedade institucional; no Brasil, converteu-se, com frequência perturbadora, em espetáculo de ostentação e distanciamento da realidade social.
Vivemos um processo silencioso de precariedade institucional. A liturgia do cargo foi substituída pela encenação permanente. A austeridade cedeu espaço ao exibicionismo. A responsabilidade pública parece ter sido diluída em conveniências partidárias e arranjos de poder.
Recentemente, o presidente Lula percorreu capitais brasileiras em agenda festiva que simboliza esse contraste. Em Recife, ocupação de dezenas de suítes em hotel de luxo para acomodar comitiva. Em Salvador, hospedagem em estabelecimento de alto padrão e presença em camarotes oficiais. No Rio de Janeiro, repetição do modelo: ampla estrutura e tratamento de celebridade.
Deslocamentos realizados com aeronaves da Força Aérea Brasileira. Um Airbus A320 e um Embraer E195, custeadas com recursos públicos. Tudo formalmente justificável. Gasta-se sem cerimônia aquilo que jamais poderiam fazer em suas vidas “normais”. Tudo institucionalmente permitido, evidentemente. Mas a questão não é apenas legalidade; é moralidade administrativa, é senso de proporção.
Em um país onde hospitais carecem de insumos, escolas enfrentam precariedade e a segurança pública é dramática, a imagem projetada é a de uma elite política autocentrada, blindada, confortável, distante do cotidiano do contribuinte que sustenta essa estrutura.
O mais grave, porém, não é o gasto isolado. É a normalização. Parlamentares silenciam e o Supremo Tribunal Federal permanece inerte, como que avalizando. A engrenagem institucional funciona como se não houvesse sequer matéria para questionamento. Consolida-se a percepção de um sistema fechado, autorreferente, imune à indignação popular.
E o povo? O povo assiste.
Assiste como quem já não acredita na possibilidade de mudança. Assiste como quem internalizou que o poder é intocável. Assiste em silêncio e o silêncio, quando prolongado, deixa de ser impotência e começa a se assemelhar a consentimento.
O Brasil, sempre anunciado como “país do futuro”, transforma o futuro em promessa eternamente adiada. Escândalos se sucedem, crises se repetem, responsabilidades se diluem. A descrença coletiva cresce e a descrença é corrosiva: enfraquece a cidadania, banaliza o desvio e anestesia a reação.
Não se trata apenas de criticar um governo ou outro. Trata-se de denunciar um padrão. Um padrão de afastamento entre poder e povo. Um padrão de complacência institucional. Um padrão de tolerância social ao inaceitável.
Pobre Brasil, não por ausência de riqueza, talento ou potencial. Pobre Brasil pela dificuldade recorrente de alinhar poder, responsabilidade e decência institucional. Pobre Brasil porque, enquanto poucos se elevam acima das regras, muitos se resignam abaixo delas.
E nenhuma democracia resiste por muito tempo quando a vigilância cívica é substituída pela indiferença.
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