
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou neste sábado (21/2) uma mudança inesperada e mais agressiva na política tarifária de Washington. Em vez de manter a tarifa global de 10% sobre todas as importações, como havia sido divulgado na sexta (20/2), Trump decidiu elevar o patamar para 15%, em uma manobra que ele mesmo definiu como resposta à decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos, que na última sexta reverteu mecanismos legais usados para instituir o pacote anterior de tributos.
A nova tarifa global, segundo Trump, será aplicada com base na Seção 122 da legislação comercial norte-americana, dispositivo que permite ao presidente impor restrições temporárias às importações para lidar com desequilíbrios na balança de pagamentos. A medida estaria programada para entrar em vigor já na próxima terça-feira (24/2) e vale por até 150 dias, podendo ser prorrogada com aval do Congresso americano.
A alteração do percentual, de 10% para 15%, não é mera recalibragem de número. Ela representa uma escalada da retórica tarifária de Trump após a Suprema Corte ter considerado, na sexta, que o pacote anterior violava leis federais ao não ter recebido autorização prévia do Congresso. Na opinião dos magistrados, o presidente havia extrapolado seus poderes em matéria de comércio, aplicando tributos que, na prática, equivaleriam a um instrumento de guerra comercial sem respaldo legal adequado.
Trump reagiu à derrota jurídica com intensidade, argumentando que usará “instrumentos legais totalmente permitidos” para manter sua política comercial agressiva. A mudança para 15% parece, portanto, uma tentativa de compensar a perda de terreno político e enviar um sinal duro aos críticos e parceiros comerciais.
Uma tarifa global de 15% teria efeitos econômicos e geopolíticos relevantes, pois incide sobre praticamente todos os produtos importados pelos EUA, com potencial de aumentar custos de produção, elevar preços ao consumidor interno e desencadear respostas de parceiros comerciais. Aumentos tarifários dessa magnitude tendem a gerar impactos em cadeia:
- Pressão inflacionária: produtos importados mais caros podem se traduzir em aumento de preços ao consumidor norte-americano, especialmente em setores dependentes de componentes estrangeiros.
. Redução da competitividade: exportadores estrangeiros, inclusive brasileiros, podem perder participação em mercados nos Estados Unidos, tornando seus produtos menos competitivos frente a concorrentes internos ou de países com acordos tarifários preferenciais.
- Reações comerciais: tarifas amplas como essas podem incitar retaliações de outros países, que muitas vezes recorrem à Organização Mundial do Comércio (OMC) ou implementam contramedidas próprias.
O Brasil, que havia sido beneficiado parcialmente pela decisão anterior da Suprema Corte, que revogou a tarifa de 10%, volta a enfrentar um cenário de incerteza. Em novembro passado Trump já tinha retirado a taxa recíproca de 10% aplicada contra o país, assim como uma sobretaxa de 40% sobre determinados itens. Ainda assim, alguns produtos brasileiros, como veículos, aços, calçados e produtos químicos, permaneciam sujeitos a sobretaxas específicas. A volta a uma tarifa global elevada pode representar risco adicional para esses setores e para novos segmentos que vinham ganhando espaço no mercado americano.
Para exportadores brasileiros, uma tarifa de 15% significa custos mais altos e margens de lucro comprimidas, sobretudo em setores competitivos. Setores como automotivo, sucroalcooleiro e metalúrgico, que dependem de acesso estável aos Estados Unidos, podem sentir os efeitos de forma mais intensa.
O imbróglio envolve também a questão dos valores já arrecadados em função das tarifas anteriores, que segundo projeção do centro de pesquisa Penn Wharton Budget Model podem totalizar até US$ 175 bilhões. Caso a Justiça americana determine a devolução desses recursos a empresas afetadas, isso pode gerar uma disputa judicial prolongada, com impacto adicional nas contas públicas dos EUA e nos fluxos de comércio internacional.
Embora a Suprema Corte tenha barrado o uso dos poderes emergenciais utilizados por Trump para criar a tarifa anterior, ela manteve a autoridade do governo para taxar setores específicos, como aço, alumínio e automóveis, se amparado por outras leis comerciais, incluindo a Seção 301, que trata de práticas consideradas desleais. A Casa Branca já sinalizou que está avaliando novas investigações e instrumentos legais para sustentar sua política tarifária.
A mudança de 10% para 15% sobre tarifas globais não é apenas uma correção numérica. É um sinal político e econômico, um recado de que a administração Trump pretende pressionar parceiros comerciais, desafiar limites jurídicos e reconfigurar dinâmicas de comércio global. Para o Brasil, o cenário representa mais um episódio de incerteza e necessidade de adaptação estratégica, em que exportadores e autoridades econômicas precisarão monitorar de perto os desdobramentos, prontos para mitigar impactos e ajustar cadeias produtivas.
Os próximos capítulos dessa disputa tarifária prometem ser decisivos não apenas para a economia brasileira, mas para o equilíbrio das relações comerciais multilaterais nos próximos anos.
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