
O Carnaval de 2026 não foi apenas uma disputa de notas. Foi um manifesto ritmado. A Unidos do Viradouro sagrou-se campeã do Grupo Especial ao transformar a batida em biografia e a bateria em protagonista. Ao levar para a avenida a história de Moacyr da Silva Pinto, o lendário Mestre Ciça, a escola fez mais do que homenagear um nome: consagrou o pulso como patrimônio cultural vivo.
Na apuração realizada nesta quarta-feira (18/2), ficou claro que a vermelho e branco de Niterói não desfilou apenas para competir, desfilou para marcar posição. E marcou.
Escolher Mestre Ciça como samba-enredo foi um gesto simbólico e estratégico. Símbolo porque reconhece um mestre que atravessou décadas e escolas, da Estácio de Sá à Unidos da Tijuca, com seu auge consagrado na própria Unidos do Viradouro. Estratégia porque trouxe para o centro do espetáculo aquele que, muitas vezes, fica à frente da bateria, mas nos bastidores do protagonismo midiático.
Ciça não é apenas regente de ritmistas. É arquiteto de emoção coletiva. Sob seu comando, a Viradouro já havia conquistado os títulos de 2020 e 2024. Em 2026, a escola não apenas contou sua história, reafirmou sua identidade.
Foram 54 jurados avaliando 12 escolas ao longo de três noites na Marquês de Sapucaí. Nove quesitos, cada um subdividido em critérios minuciosos, com notas que podiam definir o destino de um ano inteiro de trabalho.
A Viradouro mostrou força em todos:
Alegorias e Adereços impactantes
Harmonia coesa
Evolução fluida
Comissão de frente tecnicamente ousada
E, claro, uma Bateria que não apenas marcou o tempo, dominou o espetáculo
Num Carnaval cada vez mais tecnológico, cenográfico e competitivo, venceu quem soube equilibrar luxo e legado, espetáculo e substância.
O desfile de 2026 reuniu potências históricas como Portela, Estação Primeira de Mangueira, Beija-Flor de Nilópolis, Acadêmicos do Salgueiro e Imperatriz Leopoldinense. Não houve vitória por acaso. Houve vitória por excelência.
Cada escola levou sua narrativa, sua estética e sua estratégia. Mas a Viradouro apresentou algo raro: unidade. Do primeiro surdo ao último casal de mestre-sala e porta-bandeira, havia uma linha invisível costurando tudo, a cadência.
Ao transformar um mestre de bateria em enredo, a Viradouro lança uma pergunta incômoda: o Carnaval está pronto para valorizar seus construtores anônimos? Coreógrafos, ritmistas, ferreiros de alegoria, costureiras, quantos ainda esperam virar tema?
O título de 2026 não é apenas mais um troféu na quadra da escola. É um recado: tradição não é nostalgia. É estratégia de futuro.
No sábado (21/2), as campeãs voltam à Sapucaí para o desfile consagrador. Mas a verdade é que a Viradouro já desfilou na memória coletiva do samba. E ali, quando a bateria é soberana, não há jurado que retire ponto.
Afinal, quando o tambor fala alto, o Rio inteiro escuta.
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