
A colisão entre uma van e um caminhão na BR-020, nas proximidades da divisa entre o Distrito Federal e Formosa (GO), deixou cinco mortos e 12 feridos na madrugada de terça-feira (17). O acidente, registrado por volta das 5h, expõe uma combinação explosiva de fatores: jornada exaustiva ao volante, transporte irregular de passageiros e possível falha humana.
Em depoimento à Polícia Civil do Distrito Federal, o motorista da van afirmou que dirigia havia mais de 12 horas. Disse ter passado “toda a madrugada” ao volante e negou ter ingerido bebida alcoólica. Ele não mencionou qualquer parada para descanso ao longo do trajeto superior a 700 quilômetros, iniciado em Santa Rita de Cássia, na Bahia, na tarde anterior.
A dinâmica do acidente, segundo relato do próprio condutor, teria começado quando ele avistou uma carreta trafegando em baixa velocidade à sua frente. Ao se aproximar, tentou desviar, mas acabou colidindo na traseira do caminhão. O impacto destruiu parte da van, que transportava 16 pessoas.
De acordo com a Polícia Rodoviária Federal, cinco ocupantes morreram — dois homens, duas mulheres e uma criança de aproximadamente 3 a 5 anos. Entre os 12 feridos estão cinco crianças, uma adolescente, um adulto e uma idosa, conforme informações do Corpo de Bombeiros Militar do Distrito Federal. O motorista do caminhão não se feriu. Já o condutor da van sofreu fraturas e foi encaminhado ao Hospital de Planaltina, onde passou por cirurgia.
A tragédia ganha contornos ainda mais graves diante de outro dado: a Agência Nacional de Transportes Terrestres informou que a van operava de forma clandestina, com status “inativo” e sem autorização para transporte interestadual de passageiros. Treze dos 16 ocupantes eram moradores da comunidade rural Engenho Velho, em Santa Rita de Cássia (BA).
A legislação brasileira é clara ao proibir que motoristas profissionais dirijam por mais de cinco horas e meia ininterruptas sem descanso, exigindo pausa mínima de 30 minutos a cada seis horas. O próprio veículo ostentava um adesivo na traseira com a frase: “O patrão mandou tocar a noite toda”. A mensagem, que pode ter soado como bravata, agora ecoa como símbolo de negligência.
Especialistas em segurança viária alertam que a fadiga é um dos principais fatores de risco nas rodovias. A sonolência reduz reflexos, compromete a capacidade de julgamento e aumenta drasticamente a chance de colisões traseiras — exatamente o tipo de impacto registrado no caso.
A PRF informou que as causas exatas ainda serão apuradas por meio de laudos periciais, mas a hipótese de exaustão ao volante é considerada relevante. A PCDF investiga se houve responsabilidade penal relacionada à jornada irregular e à operação clandestina do transporte.
A tragédia da BR-020 não é apenas um acidente. É o retrato de um sistema tolerante com o improviso, com o transporte irregular e com jornadas incompatíveis com a segurança. Quando a pressa encontra o cansaço, o resultado costuma ser devastador.
Cinco vidas foram interrompidas. Doze pessoas seguem hospitalizadas. E a pergunta que permanece é incômoda: quantas tragédias ainda serão necessárias para que fiscalização, responsabilidade empresarial e cumprimento da lei deixem de ser exceção e passem a ser regra nas estradas brasileiras?
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