
Durante anos, o brasileiro repetiu quase como um bordão: o Brasil é o país da corrupção. Para muitos, parecia exagero emocional, fruto do noticiário pesado e da desconfiança crônica nas instituições. Agora, porém, o sentimento ganhou carimbo oficial. A Transparência Internacional não apenas confirmou a percepção como colocou números, ranking e diagnóstico no que já era intuído nas ruas: o Brasil está estagnado, afundado na impunidade e reincidente nos mesmos erros estruturais.
O Índice de Percepção da Corrupção (IPC) de 2025 mostrou que o país repetiu a segunda pior nota de sua série histórica iniciada em 2012: 35 pontos em uma escala que vai de 0 (altamente corrupto) a 100 (muito íntegro). O Brasil permanece na 107ª posição entre 182 países, abaixo da média mundial e da média das Américas. Em termos claros: estamos mais próximos do atraso institucional do que das democracias maduras.
Os números são ainda mais simbólicos quando se observa a trajetória histórica. Em 2012 e 2014, o Brasil chegou a marcar 43 pontos. Desde então, a curva é descendente, com pequenas oscilações que não alteram o quadro geral. É como um paciente que alterna febres e melhoras momentâneas, mas nunca sai da UTI. A Transparência Internacional é categórica: o país vive uma estagnação crônica, e não um tropeço passageiro.
O IPC não é baseado em achismos. Ele reúne até 13 indicadores independentes que avaliam a percepção de especialistas, pesquisadores e executivos sobre corrupção no setor público, mecanismos de controle, transparência, punição e prevenção. No caso brasileiro, oito indicadores foram considerados — e todos apontam na mesma direção: o problema não é pontual, é estrutural.
Corrupção, nesse contexto, não se resume a malas de dinheiro ou escândalos isolados. Ela se caracteriza pela captura de instituições, pelo uso político do orçamento, pela fragilidade dos órgãos de controle, pela seletividade da Justiça e, sobretudo, pela ausência de punição efetiva, inclusive para corruptos confessos.
A Transparência Internacional não poupa ninguém. Segundo o diretor-executivo da entidade no Brasil, Bruno Brandão, os Três Poderes da República contribuem diretamente para o mau desempenho do país.
O Executivo até avançou pontualmente no uso de inteligência financeira contra lavagem de dinheiro, mas falhou ao permitir a captura de agências regulatórias, manter estatais vulneráveis a interesses políticos e sustentar a velha lógica da barganha via emendas parlamentares — uma engrenagem que move bilhões com pouco controle e quase nenhuma transparência.
O Legislativo, por sua vez, atua como um freio — não ao crime, mas ao combate à corrupção. Afrouxamento da Lei da Ficha Limpa, fortalecimento de emendas impositivas e resistência sistemática a mecanismos de fiscalização reforçam a percepção de um Congresso mais preocupado em se blindar do que em moralizar o sistema.
Já o Judiciário, especialmente o STF, vive uma contradição corrosiva. Ao mesmo tempo em que tenta impor alguma transparência às emendas, garante impunidade em casos de macrocorrupção, inclusive com réus confessos. Soma-se a isso a exposição de ministros em relações consideradas suspeitas com empresas envolvidas em processos na própria Corte — algo que, em democracias consolidadas, seria impensável.
Se há um fio condutor em todo o diagnóstico, ele atende pelo nome de impunidade. No Brasil, a corrupção não é apenas praticada — ela é tolerada, negociada e, muitas vezes, premiada. O recado que se transmite é simples e devastador: o crime compensa, desde que seja bem articulado.
Não por acaso, o Brasil aparece próximo de países como Sri Lanka, Argentina e Ucrânia no ranking, e muito distante de nações como Dinamarca, Finlândia e Cingapura. Não se trata de riqueza, mas de instituições. Não é falta de leis, mas de vontade política e coragem institucional para aplicá-las.
O levantamento da Transparência Internacional desmonta o discurso confortável de que a corrupção é apenas uma narrativa política ou herança do passado. Ela é presente, ativa e institucionalizada. E enquanto Executivo, Legislativo e Judiciário continuarem empurrando responsabilidades uns para os outros, o Brasil seguirá prisioneiro do mesmo ciclo: escândalo, indignação, esquecimento e reincidência.
No fim das contas, o ranking não humilha apenas o país diante do mundo. Ele expõe algo ainda mais grave: a distância entre o discurso oficial e a realidade institucional, e o custo dessa distância para a democracia, a economia e a confiança do cidadão. Porque, quando a corrupção deixa de chocar, o problema já venceu.
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