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A guerra do poder no Piauí às vésperas das eleições

Entre capitanias modernas, hegemonia petista e a possibilidade de ruptura

01/02/2026 às 07h30 Atualizada em 01/02/2026 às 09h14
Por: Arthur Feitosa
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Imagem gerada por inteligência artificial
Imagem gerada por inteligência artificial

À medida que se aproximam as eleições gerais no Brasil, o ambiente político se torna menos programático e mais revelador das engrenagens reais do poder. No Piauí, esse fenômeno assume contornos ainda mais evidentes. O estado parece reviver, sob roupagem moderna, a lógica das antigas capitanias hereditárias, onde poucos mandam, muitos obedecem e o eleitor é tratado mais como posse do que como sujeito político.
No centro desse sistema está o Partido dos Trabalhadores, hegemonicamente comandado por Wellington Dias há décadas. A longevidade de seu poder transformou o PT piauiense em algo mais próximo de um feudo político do que de uma organização partidária democrática, com alternância de lideranças e renovação interna.

Embora publicamente alinhados, Wellington Dias e Rafael Fonteles vivem uma relação que se aproxima mais de uma peleja silenciosa pelo controle do poder do que de uma sucessão natural e harmônica. Ambos medem forças para saber quem, de fato, seguirá como o “mandante” da política piauiense.

Rafael Fonteles, governador em busca da reeleição, é oriundo de uma das famílias mais tradicionais e abastadas do estado. Sua ascensão não decorreu de uma trajetória popular clássica, mas de uma construção técnica, burocrática e partidária cuidadosamente patrocinada pelo grupo dominante. Já Wellington Dias, embora também consolidado no poder, carrega uma reputação recorrente: a de não honrar compromissos políticos quando estes deixam de lhe ser convenientes.

Essa característica se revela de forma cristalina ao longo da história recente do estado. Em 2010, Wellington Dias firmou compromisso para que seu sucessor fosse o então senador João Vicente Claudino. Às vésperas da eleição, rompeu o acordo e apoiou Wilson Martins.

Em 2018, repetiu o padrão. Desta vez, o acordo foi costurado com o empresário João Claudino Fernandes para que seu filho, João Vicente Claudino, fosse o vice na chapa de reeleição. João Vicente recusou o convite, desconfiando da palavra de Wellington Dias. O desfecho foi a chapa pura com Regina Sousa como vice.

Esse movimento abriu, de forma indireta, o caminho para Rafael Fonteles se tornar o candidato do PT ao governo do estado anos depois. Se João Vicente tivesse aceitado aquele acordo, Rafael Fonteles muito provavelmente jamais teria chegado ao Palácio de Karnak. Esse episódio talvez represente o maior erro estratégico de Wellington Dias em toda a sua trajetória política.

No atual cenário, Rafael Fonteles age como quem considera a reeleição um fato consumado. Mesmo sem ter conseguido entregar quase nada do que prometeu na campanha de 2022, governa com a confiança de quem acredita não haver adversário capaz de submetê-lo ao crivo real do eleitorado. Essa postura revela uma leitura perigosa: a de que o eleitor piauiense continuará sendo tratado como curral eleitoral, resignado, dependente de programas sociais e submetido à lógica da cooptação política. No entanto, há sinais de desgaste. A sociedade piauiense começa a demonstrar cansaço com a ausência de renovação e passa a observar com mais atenção nomes que escapam da engrenagem tradicional do poder.

É nesse contexto que surge um nome que, em 2022, por pouco não encerrou a carreira política de Wellington Dias: o ex-prefeito de Floriano, Joel Rodrigues. Diferentemente de Rafael Fonteles, Joel tem uma trajetória marcada pela origem humilde e pela construção política no contato direto com o povo. Seu principal trunfo está justamente no contraste: enquanto Rafael nasce no conforto da aristocracia piauiense, Joel se forja na escassez e na vivência popular. Caso consiga compor chapa com um empresário de peso e credibilidade, como João Vicente Claudino, Joel deixaria de ser apenas um nome competitivo para se tornar uma ameaça real à hegemonia do PT no Piauí.

O paralelo histórico: Lula, José Alencar e a credibilidade do setor produtivo

A história recente do Brasil oferece um paralelo claro. Em 2002, Lula da Silva rompeu a desconfiança do mercado e do eleitorado moderado ao se aliar a José Alencar, um dos maiores empresários do país e controlador da Coteminas. Alencar forneceu a Lula aquilo que lhe faltava: proximidade, credibilidade e aceitação junto ao setor produtivo do país que àquela altura nutria forte resistência ao seu nome.
O mesmo raciocínio se aplica ao Piauí. Um candidato popular, com forte apelo junto às camadas mais pobres, aliado a um nome respeitado do empresariado, pode desmontar a narrativa da “eleição ganha” e transformar o pleito em algo difícil, competitivo e imprevisível.

No Nordeste  e especialmente no Piauí, o PT alimenta a crença de que governa um território eleitoral inexpugnável. Esse pensamento, herdado da lógica das capitanias hereditárias, precisa ser urgentemente revisto.
Se as eleições forem minimamente limpas  o que historicamente é difícil quando se enfrenta um governador candidato à reeleição com a máquina pública em pleno funcionamento, o cenário pode mudar radicalmente.
Uma chapa popular, combinada com credibilidade econômica e discurso de ruptura, desloca Rafael Fonteles do campo da “vitória certa” para o da eleição complicada.

Há ainda um elemento subterrâneo nesse jogo: a relação ambígua de Wellington Dias com sua própria criação política. Reza a lenda e os bastidores reforçam, que Wellington não vê Rafael Fonteles com absoluto conforto. Enxerga nele um potencial rival interno, alguém que pode, no futuro, disputar sua liderança dentro do PT piauiense.
Wellington segue adiante sustentado por vitórias sucessivas, mas também por uma prática política pragmática, pouco afeita à lealdade duradoura. Essa característica, que tantas vezes o favoreceu, pode agora cobrar seu preço.

Nesse contexto o Piauí vive uma encruzilhada política. O eleitor, por muito tempo tratado como massa de manobra, começa a perceber que o jogo é mais complexo do que a narrativa oficial sugere.

A eleição que o PT vende como decidida pode, diante de uma composição correta da oposição, se transformar em um divisor de águas. Não se trata apenas de nomes, mas de modelos de poder: de um lado, a perpetuação de um sistema fechado; de outro, a possibilidade, ainda que incerta, de ruptura.

O resultado dependerá de quanto o eleitor estará disposto a continuar aceitando o papel que lhe foi imposto desde os tempos das capitanias: o de apenas obedecer.

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Sobre Arthur Feitosa - Executivo e articulista político do portal Gazeta Hora1
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