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Lewandovski sai de cena, mas o roteiro continua

O “foro íntimo”, o Banco Master e as explicações que o Brasil ainda espera

31/01/2026 às 12h12
Por: Douglas Ferreira
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Enrique e Ricardo Lewandovski, pai e filhos, como advogados de dois grupos investigados pela PF - Reprodução/Imagem gerada por IA
Enrique e Ricardo Lewandovski, pai e filhos, como advogados de dois grupos investigados pela PF - Reprodução/Imagem gerada por IA

Desde o anúncio da saída de Ricardo Lewandovski do Ministério da Justiça, a explicação oficial — “motivo de foro íntimo” — soou como fotografia fora de foco. Não dava para enxergar direito o cenário, muito menos os personagens ao redor. Agora, com o avanço do maior escândalo financeiro da história da República, o enquadramento começa a ganhar nitidez. E o nome Lewandovski aparece no centro da imagem.

Embora o ex-ministro não figure como investigado, seu nome consta como recebedor de mais de R$ 6 milhões do Banco Master, em um contrato de consultoria firmado com a instituição comandada por Daniel Vorcaro. O pagamento teria ocorrido em 21 parcelas mensais de cerca de R$ 250 mil. Até aqui, em tese, nada de ilegal: contrato privado, consultoria declarada, dinheiro rastreável.

O problema começa quando se observa o calendário. Parte dessas “mesadinhas” foi recebida quando Lewandovski já ocupava a cadeira principal do Ministério da Justiça. Ou seja, enquanto era o chefe máximo da pasta responsável pela Polícia Federal — exatamente o órgão que investiga o Banco Master. Aí a coisa deixa de ser coincidência e passa a parecer conflito de interesses.

Para o leitor comum, é como se o árbitro de uma final de campeonato estivesse recebendo salário de um dos times em campo, ainda que com o argumento de que o contrato foi assinado antes do apito inicial. Pode até não ser crime, mas convenhamos: é, no mínimo, um espetáculo estranho.

E o enredo não para por aí. Soma-se ao episódio o fato de o filho de Lewandovski, Enrique Lewandovski, atuar na defesa de investigados no chamado Rombo do INSS, outro escândalo bilionário que assombra o país. Não se trata de culpar herança genética ou sobrenome, mas de reconhecer que, quando tudo se concentra em uma mesma família, o cheiro de conflito fica mais forte que café requentado.

O silêncio da família Lewandovski diante dessas conexões só contribui para o crescimento de um verdadeiro catatau de especulações. No Brasil, onde a imaginação política já é fértil por natureza, a ausência de explicações claras funciona como adubo.

No Planalto, a confusão ganhou contornos ainda mais curiosos. O presidente Lula da Silva afirmou que não tinha conhecimento do contrato de seu ministro com o Banco Master. Declaração que durou pouco. A ministra-chefe da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, tratou de desdizer o chefe e afirmou à imprensa que Lula tinha, sim, pleno conhecimento do contrato firmado pela pessoa física de Lewandovski com o banco.

Ou seja, numa mesma novela, temos dois narradores oficiais contando histórias diferentes. É como assistir ao telejornal e, no intervalo, descobrir que o âncora e o repórter estavam falando de países distintos.

Diante disso tudo, o tal “foro íntimo” começa a parecer menos um motivo pessoal e mais um eufemismo elegante para evitar explicações constrangedoras. Não se trata de condenar previamente ninguém, mas de reconhecer que a sucessão de fatos pede algo simples e raro na política brasileira: clareza.

O Brasil não exige espetáculo, apenas coerência. Se não houve irregularidade, que se explique com dados, datas e contratos. Se houve erro de avaliação, que se admita. O que não dá é fingir que está tudo normal enquanto o árbitro, o time e o patrocinador aparecem no mesmo recibo.

No fim das contas, a saída de Lewandovski pode até ter sido silenciosa, mas o barulho em torno do seu nome só aumenta. E, em política, quando o silêncio fala demais, é porque alguém está devendo explicações à opinião pública.

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