
A frieza dos números não costuma pedir licença. Ela chega como lâmina bem amolada, dessas que cortam fundo e sem anestesia. Ignorá-la nunca foi estratégia inteligente em política. Desafiá-la, então, costuma ser atalho para a derrota anunciada. E, no caso do presidente Lula da Silva, os números vêm falando alto, claro e cada vez mais duro.
Não se trata de um soluço estatístico, nem de uma pesquisa fora da curva. A desaprovação ao presidente cresce de forma contínua e consistente, pesquisa após pesquisa, instituto após instituto. O salto de 14 pontos percentuais na rejeição não deixa margem para interpretações complacentes: há uma tendência em curso. E tendências, em política, costumam ser implacáveis com quem insiste em negá-las.
O dado central é simples, mas devastador: a maioria dos brasileiros não percebe entregas. As promessas de campanha ficaram pelo caminho, perdidas entre discursos, viagens e anúncios. No cotidiano, o eleitor não vive de narrativa, vive de realidade. E a realidade que bate à porta é dura: violência fora de controle, serviços públicos caros e ineficientes, desemprego persistente e uma feira cada vez mais cara.
A inflação, velha conhecida do brasileiro, voltou a corroer o salário e a reduzir a comida no prato. O dinheiro acaba antes do fim do mês, e a paciência do eleitor também. Quando a conta não fecha, o discurso não convence. É nesse caldo que se forma a rejeição política: no bolso vazio, na geladeira rala, no medo diário e na sensação de que o governo fala muito e entrega pouco.
O resultado disso aparece de forma cristalina na pesquisa do Paraná Pesquisas. Para 51% dos brasileiros, Lula não merece um novo mandato. Apenas 45% defendem sua reeleição. Outros preferem o silêncio, talvez aguardando mais fatos do que palavras. Em termos políticos, é um sinal vermelho piscando sem parar no painel do Planalto.
Mais do que a rejeição pessoal, o dado revela um esgotamento de projeto. Cresce no eleitorado a percepção de que o ciclo de Lula se aproxima do fim. Não por conspiração, mas por fadiga. A sensação majoritária é de que o presidente já deu o que tinha de dar e que o país precisa de outra condução, outro rumo, outro nome.
O levantamento ainda expõe um detalhe inquietante para o governo: Lula aparenta ter atingido um teto eleitoral. Estacionado em torno de 39,8% das intenções de voto, vê adversários crescerem. Flávio Bolsonaro, por exemplo, avança rapidamente e já encurta perigosamente a distância. A oposição, fragmentada, soma quase o triplo da diferença entre os dois principais nomes, indicando que há espaço real para uma virada.
Num eventual segundo turno, o cenário é ainda mais simbólico: a diferença entre Lula e Flávio Bolsonaro cai para pouco mais de dois pontos. O que antes parecia improvável hoje se mostra perfeitamente plausível. A flecha da rejeição aponta para cima; a da confiança, para baixo.
No fim das contas, os números dizem aquilo que o discurso oficial tenta abafar: a maioria dos brasileiros começa a enxergar que o tempo político de Lula pode estar se esgotando. Se isso significa aposentadoria definitiva ou apenas uma travessia difícil até as urnas, o eleitor ainda vai decidir. Por enquanto, o recado está dado. E ele não é nada confortável para quem ocupa o Palácio do Planalto.
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