
O vídeo de um professor de Central do Maranhão viralizou porque fez o que raramente se vê no debate político brasileiro: juntou simplicidade, coragem intelectual e uma pergunta devastadora. Sem gritos, sem palavrões e sem militância cega, ele apenas escancarou uma realidade que há décadas insiste em ser empurrada para debaixo do tapete. Central do Maranhão, o município mais lulista do Brasil, também figura entre os mais pobres do país. A conta não fecha. E quando a conta não fecha, alguém está pagando, quase sempre o mais fraco.
Localizado no Litoral Ocidental Maranhense, com pouco mais de 7 mil habitantes, Central do Maranhão parece uma fotografia amarelada do Brasil que não deu certo. Criado em 1994, o município segue prisioneiro de dois estigmas crônicos: pobreza extrema e fidelidade eleitoral quase religiosa ao PT. Em 2022, Lula obteve ali impressionantes 90,56% dos votos, contra apenas 9,44% de Jair Bolsonaro. Um placar soviético em plena democracia tropical.
Seria razoável supor que tamanho alinhamento ideológico rendesse ao município atenção especial do governo federal. Afinal, na lógica política, quem entrega tudo espera ao menos alguma coisa em troca. Mas a realidade é cruel: Central do Maranhão segue esquecida, como um parente pobre que só é lembrado na hora do discurso. O lulismo foi às urnas com fervor, mas o retorno em políticas públicas estruturantes nunca chegou.
O professor, cuja identidade pouco importa diante da força da mensagem, não acusa. Ele reflete. E é justamente isso que incomoda. Ao perguntar “o que tem em Central do Maranhão?”, ele não busca culpados individuais, mas expõe uma engrenagem perversa: a normalização da miséria como ativo político. Seu discurso é quase pedagógico, como convém a um educador, ao afirmar que está apenas exercendo seu papel de eleitor: votar e cobrar.
A repercussão do vídeo mostra que a ferida estava aberta. Comentários como “PT não gosta do pobre, gosta da pobreza” ou “se Lula precisa dos pobres para se manter no poder, qual o interesse em acabar com a pobreza?” não surgem do nada. São fruto de décadas de frustração acumulada, especialmente em um Estado governado pela esquerda há mais de 20 anos. O Maranhão atravessou longos oito anos sob o comando de Flávio Dino, que ainda conseguiu emplacar o sucessor. O discurso era sempre o mesmo: justiça social, combate às desigualdades, prioridade aos mais vulneráveis. Os números, porém, insistem em contar outra história.
Central do Maranhão é o retrato em miniatura de um modelo que parece funcionar melhor eleitoralmente do que socialmente. A pobreza permanece firme, quase institucionalizada, como se fosse parte da paisagem. É o tipo de lugar onde o Estado chega mais em época de eleição do que em forma de saneamento, educação de qualidade ou oportunidades reais de desenvolvimento.
A fala do professor corta como bisturi porque não é panfletária. Ela é incômoda justamente por ser honesta. Ele não xinga Lula, não pede voto para ninguém, não convoca revolução. Apenas liga os pontos. E, ao fazer isso, desmonta a narrativa confortável de que miséria é destino ou azar geográfico. Não é. É escolha política.
Central do Maranhão vota como quem deposita fé. Mas fé sem obras é fé morta. E o que o vídeo escancara é isso: quando o voto vira cheque em branco, o abandono vira política de Estado. O professor não rasgou o presidente. Rasgou o véu. E mostrou que, em alguns lugares do Brasil, o lulismo é majoritário, mas a dignidade segue em minoria absoluta.
Confira o vídeo que viralizou no instagram:
BRASIL Brasil - A engrenagem da escassez: como o poder se alimenta da miséria
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