
A reação de parte da grande mídia à caminhada liderada por Nikolas Ferreira diz menos sobre o ato em si e muito mais sobre o incômodo estrutural que ele provoca. As críticas que se avolumaram não se concentraram na organização, no caráter pacífico, no financiamento privado ou na dimensão cívica da mobilização. O alvo real esteve em outro lugar: na profissão de fé do parlamentar. O problema, para muitos formadores de opinião, não foi a marcha, foi a oração; não foi a pauta por justiça e liberdade, foi o nome de Deus pronunciado em público.
É sintomático que um movimento com centenas de quilômetros percorridos, milhares de apoiadores e adesão espontânea tenha sido ignorado, minimizado ou tratado com sarcasmo por boa parte da imprensa. Quando não foi silenciado, foi ridicularizado. O enquadramento preferido não foi o do simbolismo democrático de cidadãos marchando por convicção própria, mas o da caricatura fácil. A associação ao “bezerro de ouro” não é descuido semântico: é escolha editorial. Serve para deslocar o debate do campo político e moral para o da zombaria e da desqualificação.
Mais revelador ainda foi o fato de o ato final em Brasília só ter alcançado espaço de destaque na Rede Globo após um raio, fenômeno natural, imprevisível e incontrolável, atingir a área e deixar feridos. Não foi a multidão, não foi a caminhada, não foi a mensagem. Foi o acidente. Como se o movimento só se tornasse “notícia” quando atravessado pela tragédia. O gesto coletivo, por si só, não mereceu atenção. O infortúnio, sim.
A explicação está nas entrelinhas. Nikolas Ferreira é um parlamentar cristão que não esconde sua fé, que a verbaliza e a transforma em elemento simbólico de sua atuação pública. Em Brasília, a caminhada terminou em oração. E isso, para determinados setores da mídia, da política e da intelectualidade, é intolerável. A oração, que para milhões representa esperança, transcendência e força moral, provoca repulsa em quem rejeita qualquer noção de algo maior que o próprio poder humano.
Há um paradoxo gritante: parte da mídia brasileira relativiza ditaduras, suaviza figuras como Nicolás Maduro e trata com condescendência regimes que perseguem opositores e sufocam liberdades. Ao mesmo tempo, empenha energia em demonizar um deputado brasileiro que caminha, ora e mobiliza pessoas sem um centavo de dinheiro público. A comparação não é apenas injusta; é reveladora de um desalinhamento moral profundo.
O comportamento do deputado Lindbergh Farias ilustra bem esse viés. No início, classificou a caminhada como ridícula. Dias depois, diante da magnitude do movimento, passou a atacá-lo com veemência e chegou ao ponto de defender que a Polícia Rodoviária Federal impedisse a continuidade da marcha. Um esquecimento conveniente: bloqueios e marchas do MST ocorrem há mais de três décadas, muitas vezes com prejuízos a terceiros e tolerância institucional, mas sem orações, sem referências a Deus e sem incômodo existencial às elites políticas.
O que se observa é uma aversão quase visceral à simples menção do Todo-Poderoso no espaço público. Como se a fé fosse um vírus a ser contido. Como se admitir a existência de um Ser superior significasse relativizar o poder terreno, os projetos ideológicos e os deuses modernos. Porque há, sim, idolatrias bem mais visíveis no Brasil contemporâneo: a idolatria do dinheiro ilícito, da propina, do mensalão, do petrolão, do rombo no INSS, das fraudes financeiras travestidas de política pública.
Nikolas Ferreira não é “bezerro de ouro”. Ele não é adorado, é seguido politicamente por afinidade, valores e coerência percebida. Jovem, em início de trajetória, conseguiu algo raro: mobilizar pessoas mais velhas, experientes, sem culto à personalidade, sem aparato estatal e sem coerção. Idolatria é outra coisa. Idolatria é fechar os olhos para líderes que mentem, roubam, comandam esquemas e exigem devoção cega em nome de uma causa supostamente superior. Líderes que vivem numa redoma e não conseguem se misturar ao povo.
O episódio bíblico do bezerro de ouro fala justamente disso: da substituição do transcendente pelo material, do abandono de princípios em troca de símbolos palpáveis de poder. Se há um bezerro de ouro no Brasil, ele não caminha rezando pelas estradas. Ele habita gabinetes, contas bancárias, contratos públicos e discursos moralistas vazios.
No fim, a hostilidade ao movimento de Nikolas Ferreira revela menos sobre seus riscos e mais sobre os temores de quem o critica. Uma caminhada pacífica, gratuita, voluntária e ancorada em valores espirituais expõe o desconforto de um sistema que tolera quase tudo, menos a fé quando ela não lhe pertence. E isso, por si só, já diz muito sobre o estado das coisas no Brasil.
Mín. 23° Máx. 32°