
O atual quadro político do Piauí vive um paradoxo evidente: enquanto nos bastidores se trava uma guerra intensa pela manutenção da hegemonia do PT no estado, grande parte do eleitorado permanece alheia, indiferente ou simplesmente incapaz de compreender a real dimensão do conflito. A disputa existe, é profunda e decisiva, mas acontece longe do olhar popular, confinada às entranhas do poder partidário.
As eleições deste ano para o esquema governamental tendem a ser marcadas por dois fatos centrais, ambos diretamente ligados ao Partido dos Trabalhadores.
O primeiro, mais visível, é a possível reeleição do governador Rafael Fonteles para um segundo mandato. Em torno desse cenário surge a discussão sobre quem será o companheiro de chapa: Washington Bandeira ou Vinícius Dias. Para o piauiense médio, que acompanha a política à distância, essa escolha soa irrelevante. O cargo de vice-governador é percebido como um apêndice caro, um seguro institucional que raramente exerce protagonismo, salvo em casos excepcionais de renúncia ou afastamento do titular. Daí o sentimento predominante: tanto faz.
Mas o verdadeiro conflito está bem mais abaixo da superfície.
O segundo fato e o mais importante está diretamente ligado às vísceras do PT. Trata-se da disputa interna pelo controle do partido e, por consequência, do futuro do poder político no estado. Caso Rafael Fonteles consiga impor o nome de sua preferência para a vice, tudo indica que este seja Washington Bandeira. E não sem razão. Há fortes indícios de que sua saída definitiva da magistratura federal, cargo obtido após enorme esforço pessoal e aprovação em um dos concursos mais difíceis do país, foi resultado de um acordo de bastidores. Abandonar a toga para assumir uma secretaria estadual, ainda que relevante como a de Educação, representa objetivamente um rebaixamento institucional.
Politicamente, porém, pode ter sido o preço pago para pavimentar sua ascensão como principal liderança do PT no Piauí no médio prazo.
No campo oposto surge Vinícius Dias, até então um nome praticamente desconhecido do grande público. Médico, de biografia política rasa, seu principal atributo conhecido é ser filho do senador Wellington Dias. Sua entrada na disputa pela vaga de vice-governador revela o verdadeiro embate que interessa ao PT: a tentativa de Wellington Dias de manter influência direta sobre o governo estadual, mesmo após deixar o Palácio de Karnak.
É nesse ponto que a eleição deixa de ser trivial. A partir de 1º de janeiro de 2027, caso Rafael Fonteles seja reeleito, o Piauí viverá dois cenários políticos completamente distintos. Um, com Washington Bandeira como vice, indicando a consolidação de uma nova liderança interna e a gradual perda de protagonismo de Wellington Dias. Outro, com Vinícius Dias, sinalizando a continuidade do controle familiar e político exercido há décadas sobre o partido e o estado.
A população piauiense, mesmo sem perceber plenamente, terá diante de si uma escolha simbólica e estratégica. Seguir com o projeto do PT tal como ele se estruturou, sustentado por ilhas de poder, apadrinhamento e compadrio, tende a perpetuar um modelo que, após mais de duas décadas, não entregou a emancipação política, econômica e social prometida. O resultado tem sido a manutenção de uma política do atraso, sem avanços estruturais que possam ser efetivamente comemorados.
Há ainda nuances reveladoras nesse jogo de forças. Se Rafael Fonteles aceitar a imposição de Wellington Dias e ceder a vaga de vice ao seu filho, entrará na campanha desmoralizado, transmitindo a imagem de um governador tutelado, frágil e sem controle sobre a própria chapa. Por outro lado, se Wellington Dias for obrigado a aceitar o nome imposto por Rafael, ficará evidente sua perda de força dentro do partido, o que pode provocar uma debandada de prefeitos e lideranças hoje alinhadas ao governo.
Esse enfraquecimento abriria espaço para alternativas externas ao PT, como a possível candidatura de Joel Rodrigues, apontado como alguém com forte penetração no interior do estado e capacidade real de romper a hegemonia petista.
No fim, o maior risco talvez seja este: enquanto o PT trava sua guerra interna pelo poder, o eleitor segue distante, anestesiado e descrente, sem perceber que o futuro político do Piauí está sendo decidido não nas urnas, mas nos acordos e conchavos silenciosos de bastidores.
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