
A indicação de O Agente Secreto ao Oscar produziu um raro consenso interno no Brasil, mas, fora do país, o movimento foi recebido com visível desconforto. A prova mais clara veio da reação do cineasta franco-espanhol Oliver Laxe, diretor de Sirât, concorrente direto do longa brasileiro na categoria de Melhor Filme Internacional. Longe de uma crítica técnica ao filme, Laxe optou pela ironia política e cultural, deslocando o debate do cinema para o comportamento dos votantes.
Em entrevista ao programa espanhol La Revuelta, o diretor afirmou que os brasileiros que integram a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas seriam “ultranacionalistas” e que, se o Brasil inscrevesse “um sapato” no Oscar, ainda assim todos votariam nele. A frase, calculadamente provocativa, foi menos uma análise do mérito artístico de O Agente Secreto e mais um desabafo de quem percebeu o favoritismo crescente do rival latino-americano.
A crítica, no entanto, revela mais sobre o incômodo do próprio Laxe do que sobre o sistema de votação do Oscar. O argumento do “voto patriótico” não é novidade na história da premiação e tampouco é exclusividade do Brasil. Franceses, italianos, espanhóis e até britânicos historicamente tendem a apoiar produções nacionais quando estas chegam à reta final da disputa. Tratar esse comportamento como “ultranacionalismo” soa menos como diagnóstico e mais como tentativa de deslegitimação.
A ironia também ignora um dado central: O Agente Secreto não foi indicado apenas na categoria internacional. O filme brasileiro avançou em áreas consideradas técnicas e centrais, como Melhor Filme, Melhor Ator para Wagner Moura, e Melhor Direção de Elenco. Essas indicações ampliadas indicam reconhecimento transversal dentro da Academia, algo que dificilmente se explica apenas por afinidade nacional.
Nesse ponto, a fala de Laxe perde força analítica. Se o apoio ao filme brasileiro fosse fruto exclusivo de um suposto corporativismo verde-amarelo, dificilmente ele teria ultrapassado a bolha da categoria internacional, tradicionalmente mais segmentada. O avanço para categorias principais sugere que o longa de Kleber Mendonça Filho dialogou com sensibilidades estéticas e políticas mais amplas do cinema contemporâneo.
A reação nas redes sociais brasileiras foi imediata e previsível. Muitos interpretaram a fala como xenofóbica, outros como puro ressentimento. Houve quem comparasse Laxe à atriz Karla Sofía Gascón, envolvida em embates semelhantes com brasileiros durante campanhas anteriores ao Oscar. Em comum, a percepção de que a crítica nasce menos da razão e mais do incômodo de ver o protagonismo brasileiro ganhar espaço num ambiente historicamente dominado por europeus e norte-americanos.
No fundo, a declaração do diretor de Sirât funciona como um termômetro involuntário do impacto de O Agente Secreto. Filmes irrelevantes não despertam reações atravessadas nem ironias públicas. Quando a crítica abandona o campo estético e migra para o ataque cultural, é sinal de que a disputa deixou de ser apenas artística e passou a ser simbólica.
As reservas internacionais à indicação brasileira, portanto, não parecem decorrer da fragilidade do filme, mas do desconforto com a sua força. A fala de Oliver Laxe não soa como a de alguém que “sabe o que diz” sobre o mérito da obra concorrente, e sim como a de quem percebeu que o jogo virou e não gostou do novo equilíbrio de forças. No Oscar, como na política, ninguém ironiza quem não ameaça.
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