
Entre o cinza e o silêncio, instala-se uma democracia sem contornos, uma paisagem política sem horizonte. O cinza não é apenas cor: é sintoma. É o retrato do esgotamento coletivo, da banalização do absurdo e da normalização da ambiguidade moral. Aquilo que antes chocava, hoje apenas passa. O que indignava, agora cansa. Vive-se uma anestesia social cuidadosamente cultivada, meticulosamente administrada por quem se beneficia dela.
Nesse ambiente turvo, prospera o político oportunista, aquele que converte a missão pública, por natureza republicana, em trampolim para negócios privados, arranjos financeiros e perpetuação familiar no poder. Não há mais pudor. Não há receio da opinião pública. Conta-se, com cinismo, com a amnésia coletiva: o escândalo de hoje será soterrado pelo de amanhã, até que nenhum escândalo reste capaz de causar espanto.
Esse retrato se aplica com precisão à política do Piauí. Aqui, qualquer resquício de moralidade não decorre de princípios, mas da conveniência momentânea. Houve um tempo em que, ao menos, se dourava a pílula: políticos ruborizavam ao indicar parentes, simulavam constrangimento, pediam licença à hipocrisia. Hoje, nem isso. A vergonha tornou-se inteiramente alheia.
Dizem governar “em nome do povo”, “para melhorar a vida do povo”. A pergunta que insiste em se impor é simples e incômoda: de qual povo falam? Certamente não do povo em abstrato, mas do povo deles, suas famílias, seus aliados, seus círculos de proteção. O Estado foi naturalizado como extensão do patrimônio familiar. Indicam-se esposas, filhos, parentes, aderentes e cúmplices sem qualquer disfarce. O público virou privado sem pedir desculpas.
A contradição se torna ainda mais grave quando se observa o papel do Partido dos Trabalhadores. O PT construiu sua história política denunciando o patrimonialismo, o nepotismo e o coronelismo. Fez disso sua bandeira moral fundadora. No Piauí, contudo, não apenas absorveu essas práticas: ampliou, refinou e institucionalizou. O que antes era combatido virou método. O que era discurso virou retórica vazia. A renovação política, princípio basilar de qualquer democracia viva, foi deliberadamente bloqueada.
Num estado em que mais da metade da população depende de programas sociais como o Bolsa Família para sobreviver, essa dependência não é tratada como tragédia a ser superada, mas como instrumento de controle político. Programas concebidos para emancipar tornaram-se para-choques eleitorais. Mantém-se uma população sem acesso a educação de qualidade, sem informação crítica, permanentemente dependente de algum “salvador da pátria”. A pobreza, longe de ser combatida em suas causas estruturais, converteu-se em ativo político.
O resultado é uma sociedade fragilizada, refém da urgência cotidiana, incapaz de romper ou ciclo da dependência e da submissão eleitoral. Não se promove autonomia porque autonomia ameaça o poder estabelecido. Não se educa criticamente porque consciência emancipa. Não se renova porque renovação rompe acordos, desmonta heranças e expõe privilégios.
Esse modelo se revela de forma cristalina na ocupação dos órgãos de controle. Pelo país afora, governadores negociam e impõem suas esposas como conselheiras vitalícias de Tribunais de Contas, num escárnio institucionalizado. No Piauí, o Tribunal de Contas do Estado abriga duas esposas de ex-governadores: Rejane Dias, esposa de Wellington Dias, e Lilian Martins, esposa de Wilson Martins.
O TCE-PI consolidou-se como um verdadeiro cabide vitalício de ex-parlamentares e herdeiros políticos. Ali está Kennedy Barros, atual presidente da corte de contas do Piauí, ele próprio ex-deputado estadual, filho do ex-deputado e ex-conselheiro Barros Araújo e sobrinho do ex-deputado estadual Abel Barros. Só para ilustrar, o atual vice-presidente do TCE-PI, o ex-deputado estadual Kleber Eulálio, é filho do ex-prefeito de Picos e ex-deputado federal Severo Maria Eulálio. Kleber Eulálio também foi prefeito de Picos e é pai do atual presidente da Assembleia Legislativa, deputado Severo Eulálio Neto. O vice-presidente da corte é ainda tio da esposa do governador Rafael Fonteles. Somam-se a eles ex-parlamentares como Flora Isabel, Olavo Rebelo e uma longa lista de ex-deputados que por lá passaram.
Diante disso, a pergunta é inevitável e perturbadora: como pode um Tribunal de Contas fiscalizar, analisar e punir desvios praticados por agentes públicos quando, não raro, analisa as contas dos próprios conselheiros, de seus padrinhos políticos ou de seus herdeiros?
Nada disso é coincidência.
É método.
É projeto.
É sistema.
Um sistema desenhado para impedir a renovação, sufocar outsiders, bloquear lideranças independentes e garantir que o poder circule apenas dentro de um clube fechado, hereditário e autorreferente. Um sistema que não teme o voto, porque controla as engrenagens que antecedem e condicionam o voto.
A democracia, assim, foi reduzida a tons de cinza. A ética virou exceção. A moralidade, mera retórica. O Estado, herança de família. E a sociedade assiste, cansada, anestesiada, silenciosa.
E o silêncio, nesse cenário, é a cor mais escura de todas.
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