
Há momentos na política em que a psicologia explica mais do que a ideologia. O avanço do acordo entre o Mercosul e a União Europeia, finalmente destravado sob a presidência do Paraguai, é um desses casos. O sucesso do presidente Santiago Peña evidenciou algo incômodo no Planalto: o acordo que Lula quis assinar quando comandava o bloco não saiu. Com Peña, saiu.
A partir daí, a diplomacia brasileira passou a agir menos como Estado e mais como ego ferido. O que se viu foi uma tentativa velada de desidratar, atrasar ou relativizar um acordo histórico, não por razões técnicas ou ambientais, mas por ciúme político. Ciúme de quem chegou depois e entregou resultado. Inveja de quem transformou pragmatismo em método e eficiência em política pública.
Enquanto Lula ensaiava discursos e condicionantes, o Paraguai organizou a casa. Peña apostou em previsibilidade fiscal, segurança jurídica e diálogo direto com os grandes centros de poder econômico. Resultado: além do acordo com a UE, o país passou a atrair datacenters americanos, aproveitando energia limpa e barata de Itaipu, e a receber uma enxurrada de empresas brasileiras em fuga do manicômio tributário do Brasil.
O contraste é constrangedor. De um lado, o Paraguai cobra 1% de imposto de exportação, 10% de imposto de renda e zera tributos sobre insumos produtivos. Do outro, o Brasil retira mais de 37% de quem produz, investe e gera empregos. Não é patriotismo mudar a fábrica para o Paraguai. É sobrevivência.
A parceria de Peña com os Estados Unidos, inclusive com interlocução próxima a grupos ligados a Donald Trump, irritou ainda mais o Planalto. O Paraguai negociou diretamente, sem pedir bênção ideológica ao Brasil. Usou o que tem de sobra, energia, estabilidade e regras claras — e entrou no jogo grande da economia digital. Lula viu. Não gostou. E tentou atravessar.
Quando se afirma que Lula tentou boicotar o acordo Mercosul/UE, não se trata de teoria conspiratória, mas de leitura política. O Brasil passou a levantar obstáculos depois que percebeu que o protagonismo não seria seu. É o velho dilema: quem não suporta ver o sucesso alheio costuma sabotar o jogo em vez de melhorar o próprio desempenho.
A ironia é cruel. O Paraguai, por décadas tratado como economia secundária do Cone Sul, hoje dá aula de competitividade. Sai da condição de patinho feio para se tornar referência regional. E o Brasil, gigante em potencial, prefere terceirizar culpas, demonizar acordos e desconfiar do mercado.
No fim, o incômodo de Lula com Santiago Peña não é ideológico. É comparativo. O Paraguai fez o dever de casa, colheu resultados e ganhou protagonismo. O Brasil ficou com o discurso. E, como ensina a política real, resultados costumam provocar mais inveja do que qualquer adversário declarado.
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