
O que se consolidou no Piauí ao longo das últimas duas décadas não pode mais ser descrito como um projeto de governo. Trata-se, com todas as letras, de um projeto de poder, meticulosamente estruturado, sustentado pela cooptação sistemática, pela compra escancarada de apoios políticos e pela distribuição seletiva de benesses estatais. A lógica que o move é rudimentar e eficaz. Quem se submete, prospera; quem resiste, é isolado, silenciado ou eliminado do jogo político.
Nesse arranjo, práticas que deveriam causar indignação coletiva tornaram-se rotina administrativa. Contratações sem concurso público, o inchaço deliberado de cargos em comissão, a ocupação da máquina estatal por amigos, aliados e grupos econômicos específicos substituíram qualquer noção de mérito, legalidade ou interesse público. A exceção virou regra; o abuso, método.
Talvez nenhum elemento desse sistema seja tão visível e tão constrangedor quanto a capitulação da imprensa. Em determinado momento, um diretor de grande empresa afirmou, sem pudor, que independentemente dos investimentos privados em publicidade, não temeria “quebrar”, pois o governo do Estado atende plenamente às expectativas econômicas e financeiras de sua empresa. Trata-se de uma confissão explícita. O poder público transformou-se em fiador de interesses privados, enquanto a informação que chega ao cidadão é cuidadosamente filtrada, subsidiada e paga com recursos públicos. O cidadão consome não notícia, mas propaganda; não jornalismo, mas marketing político disfarçado de informação.
O cerco institucional é completo. O Poder Executivo controla os recursos financeiros do Estado, detém maioria absoluta na Assembleia Legislativa e domina as indicações ao Tribunal de Justiça. Controla a nomeação do Procurador-Geral de Justiça e, por consequência, exerce influência direta sobre o Ministério Público, bem como a escolha do Defensor Público-Geral. Para fechar o circuito, mantém sob sua órbita praticamente todas as emissoras de televisão, rádios FM, rádios comunitárias, blogs e a esmagadora maioria dos portais de notícias. O contraditório desaparece; a crítica torna-se exceção tolerada apenas quando inofensiva.
Chamar esse arranjo de democracia exige um esforço notável de cinismo. O que existe, na prática, é uma autocracia de baixa intensidade, travestida de normalidade institucional. O processo eleitoral reduz-se a um ritual formal, um protocolo legal destinado a legitimar decisões previamente tomadas nos corredores do Palácio de Karnak. Com tamanho aparato político, financeiro e midiático, apenas um gestor extraordinariamente incompetente conseguiria perder uma eleição. O eleitor, por sua vez, é empurrado à condição de figurante, quase constrangido a aceitar como natural uma disputa viciada desde a largada.
Nem sempre foi assim. Houve um tempo em que o Piauí conheceu uma oposição real, em que o conflito de ideias impulsionava avanços institucionais. A Assembleia Legislativa era um espaço de embate efetivo entre governo e oposição. Esse modelo começou a ruir a partir de 2003, com a ascensão de Wellington Dias, cuja estratégia foi clara e eficaz. Cooptar a oposição até torná-la irrelevante. Desde então, o Legislativo passou a operar como órgão auxiliar do Executivo, limitado a chancelar decisões previamente definidas.
O avanço sobre o Judiciário seguiu a mesma lógica. Desembargadores passaram a ser indicados não pelo notório saber jurídico, mas pela proximidade pessoal com o chefe do Executivo, muitos com currículos questionáveis sob o prisma técnico. Diante desse cenário, impõe-se uma pergunta inevitável e inquietante. Quem conterá a vontade de quem ocupa o Palácio de Karnak?
O quadro ganha contornos ainda mais complexos quando se observa a relação entre criador e criatura. Nem mesmo Wellington Dias, arquiteto desse sistema, parece hoje deter força suficiente para interferir nas decisões de Rafael Fonteles.
A escolha de Washington Bandeira, ex-juiz do trabalho, amigo pessoal e sem qualquer trajetória política, completamente desconhecido da população como companheiro de chapa, descartando sem constrangimento o atual vice-governador Themistocles Filho, deixou claro que não se trata de um simples arranjo eleitoral, mas de uma engrenagem cuidadosamente montada para a perpetuação do mando.
A disputa real não parece ser 2026, cuja vitória o atual governador considera líquida e certa. O verdadeiro embate projeta-se para 2030, quando se encerra o mandato de senador de Wellington Dias. Haverá apenas uma vaga ao Senado Federal, desejada tanto pelo cacique quanto pela criatura. Rafael Fonteles não parece aspirar apenas à vaga. Almeja substituir Wellington como principal líder político do Piauí.
Ao que tudo indica, Wellington Dias pode ter cometido o erro clássico da política. Transformar o afilhado em rival. Elevou alguém cuja principal credencial era apenas o sobrenome, filho do ex-deputado federal Nazareno Fonteles e nada além disso antes de ser alçado ao núcleo do poder por obra e graça daquele que agora pode enfrentá-lo como principal adversário em seu projeto de manutenção política. A história, mais uma vez, repete-se como farsa e confirma sua máxima mais cruel: na política, o aliado de hoje pode tornar-se o inimigo de amanhã, sem explicações, sem pudor e sem nenhum constrangimento.
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