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Brasil DOMÍNIO TERRITORIAL

Telhado do crime, quando o tráfico cobre a rua e o Estado fecha os olhos

Facção ergue túnel de zinco para driblar drones da polícia no Rio, expõe ousadia do tráfico e a constrangedora lentidão do poder público diante do domínio territorial

13/01/2026 às 05h04
Por: Douglas Ferreira
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O tráfico está indo cada vez mais longe no desafio ao Estado e à sociedade brasileira - Foto: Reprodução
O tráfico está indo cada vez mais longe no desafio ao Estado e à sociedade brasileira - Foto: Reprodução

O que aconteceu em Senador Camará não é apenas mais um capítulo da crônica policial do Rio de Janeiro. É uma obra de engenharia criminal, um manifesto em chapa metálica, um recado direto e sem rodeios: o tráfico não apenas resiste ao Estado, ele se adapta, inova e, quando pode, ironiza.

Após o fim das barricadas e o impacto da megaoperação policial que usou drones para surpreender criminosos e desmontar estruturas do crime, os traficantes ligados ao Terceiro Comando Puro - PCP, decidiram responder à altura. Se o céu passou a vigiar, a solução foi simples e escandalosa: tapar o céu. Cobriram uma rua inteira, por mais de 250 metros, com telhas de zinco, criando um corredor metálico digno de distopia urbana. Um túnel do crime a céu aberto, ou melhor, sem céu algum.

A cena é surreal. Onde deveria haver sol, ventilação e passagem pública, surgiu um telhado improvisado, pesado de simbolismo e ousadia. Não é proteção contra chuva nem contra o calor. É proteção contra o Estado. Contra drones, helicópteros, câmeras, contra qualquer tentativa de vigilância. É o tráfico dizendo, em linguagem de obra: “aqui, quem manda somos nós”.

O episódio ocorreu em Senador Camará, na Zona Oeste do Rio, uma região que há anos convive com o avanço silencioso, e às vezes barulhento, do domínio territorial das facções. Ali, o zinco não serviu apenas para esconder armas, drogas e cargas roubadas. Serviu para expor algo ainda mais grave: a capacidade do crime organizado de intervir no espaço urbano sem ser imediatamente interrompido.

A pergunta que soa, mais alta que o barulho das telhas sendo instaladas, é simples e constrangedora: como uma rua inteira é coberta sem que ninguém veja, ou sem que ninguém aja? Onde estavam a prefeitura, os órgãos de fiscalização urbana, as forças de segurança? Quanto tempo esse “teto da ilegalidade” ficou de pé até virar notícia? Cada dia de permanência da estrutura era um atestado de fraqueza institucional.

Do ponto de vista estratégico, a ideia é tão rudimentar quanto eficaz. Se o drone enxerga de cima, bloqueie a visão. Se a tecnologia avança, o crime responde com criatividade bruta. É a lógica da favela transformada em laboratório tático, onde a ilegalidade corre na frente e o Estado vem atrás, sempre reagindo, quase nunca prevenindo.

Nessa foto aérea dá para ver melhor o tamanho da ousadia do PCP em Senador Camará - Foto: Reprodução

Mas o impacto não foi apenas policial. Moradores tiveram casas mais quentes, escuras e mal ventiladas. A rua virou um forno metálico, uma sombra opressiva que simboliza exatamente o que o domínio do tráfico representa para quem vive ali: menos luz, menos ar, menos liberdade.

Quando a polícia finalmente derrubou o telhado, a ação foi necessária, mas tardia. A estrutura caiu, mas a mensagem já tinha sido enviada. O tráfico mostrou que consegue construir, ocupar e operar em plena via pública. Mostrou que observa a movimentação do Estado, estuda suas estratégias e responde com soluções próprias, por mais absurdas que pareçam.

O “telhado da droga” não envergonha apenas uma comunidade ou uma cidade. Ele escancara um problema nacional. Permitir que o crime cubra ruas, dite regras e redesenhe o espaço urbano é mais do que omissão: é convivência forçada, quase normalizada, com o inaceitável.

Se o Estado não agir com a mesma criatividade, rapidez e presença que o crime demonstra, novos túneis surgirão, talvez não de zinco, mas de silêncio, medo e conformismo. E esses, ao contrário das telhas, são bem mais difíceis de derrubar.

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