
“E o Perú rodou”.
Como diria, em tom quase profético, a frase filosófica da cantora Maria da Inglaterra em uma de suas canções, o Peru rodou. Rodou para frente. Rodou para cima.
Enquanto o Brasil, paradoxalmente, insiste em girar em falso, preso a um modelo econômico exaurido, sustentado artificialmente por expansão fiscal, emissão monetária e aumento contínuo da carga tributária, tudo em nome da sobrevivência política até outubro de 2026.
Quem hoje experimenta e vive a economia brasileira percebe, sem esforço, seus sinais inequívocos de fadiga estrutural. A política econômica do atual governo, marcada pela obsessão arrecadatória e pelo desprezo à previsibilidade fiscal, caminha perigosamente rumo ao esgotamento. A ordem é gastar, emitir, tributar e intervir ainda que isso comprometa o amanhã, para garantir competitividade eleitoral no curto prazo. Trata-se de uma estratégia irresponsável, cujo custo será socializado após o pleito.
Analistas econômicos respeitados, no Brasil e no exterior, convergem em um diagnóstico inquietante: mantido o atual curso, o sistema entra em colapso, se não antes, até ou logo após as eleições presidenciais de 2026. O país revive, mais uma vez, sua conhecida saga de autofagia destrutiva. Consome a si mesmo para sustentar projetos de poder, sem jamais consolidar um projeto duradouro de desenvolvimento nacional.
Enquanto isso, nossos vizinhos avançam. De perto, pude testemunhar exemplos concretos de países sul-americanos que estão, de forma inequívoca, se descolando do outrora gigante Brasil. O Uruguai é talvez o caso mais emblemático. Ali se encontra uma sociedade sofisticada, funcional e institucionalmente madura, em muitos aspectos semelhante à social-democracia escandinava. É verdade que o custo dessa sofisticação é elevado, os preços são proibitivos para a maioria dos brasileiros, mas tudo funciona. Cidades limpas, trânsito organizado, respeito às instituições, segurança jurídica nos negócios e uma construção civil de altíssimo padrão em todo o país. Em Punta del Este, os valores imobiliários rivalizam com os das melhores áreas da costa de Miami. Montevidéu é cosmopolita, elegante e previsível. Brasileiros são bem recebidos e, não raro, estimulados a fazer do Uruguai um lugar para viver e investir.
A Argentina, por sua vez, vive um momento ambíguo. Uma mistura de esperança cautelosa e desconfiança profunda.
Tudo graças à herança de governos perdularios que até recentemente estavam no poder. O trauma deixado por décadas de populismo econômico ainda é visível nas ruas de Buenos Aires e Rosário, com lojas fechadas e pontos comerciais abandonados. No entanto, sob o governo liberal de Javier Milei, observa-se um processo de reformas estruturais que começa a produzir sinais de estabilização, especialmente no controle da inflação. O clima é de otimismo moderado, sustentado por dados que indicam maior previsibilidade macroeconômica. Ainda assim, chama atenção o fato de o real brasileiro perder espaço, a galope, frente ao peso argentino e ao uruguaio, algo impensável há poucos anos.
E então chegamos ao Peru.
Por décadas, o Peru foi sinônimo, para os brasileiros, de instabilidade política crônica: golpes, presidentes destituídos, fugas cinematográficas, caçadas internacionais dignas de roteiros hollywoodianos. Pois bem, o Peru rodou. Rodou para melhor. Desde a chegada pelo novíssimo e elegante Aeroporto Internacional Jorge Chávez, em Lima, até as largas e limpas avenidas litorâneas que serpenteiam as falésias onde se ergue uma metrópole de quase onze milhões de habitantes, o que se vê é vida pulsando. Jardins impecáveis, shoppings modernos, infraestrutura urbana eficiente e, sobretudo, canteiros de obras por todos os lados testemunhos concretos de um crescimento econômico vigoroso.
Os preços são estáveis e compatíveis com o padrão de consumo do brasileiro médio, o que torna o país ainda mais atraente. O Peru, tão pouco conhecido e tão mal compreendido por nós, emerge hoje como um dos exemplos mais consistentes de estabilidade macroeconômica e expansão sustentada na América do Sul.
Depois de ver com meus próprios olhos a realidade dura do Brasil, a expectativa cautelosamente positiva da Argentina, o oásis institucional chamado Uruguai e a pujança econômica do Peru, torna-se impossível ignorar a ironia histórica. Maria da Inglaterra, sem jamais imaginar, vaticinou o futuro de um país inteiro em sua canção.
Sim. O Peru rodou.
E o Brasil, se insistir nesse caminho, corre sério risco de ficar para trás, mais uma vez, por escolha própria.
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