
A nota conjunta divulgada por Brasil, México, Chile, Colômbia, Uruguai e Espanha soa, para muitos observadores atentos da realidade latino-americana, como um documento produzido em um universo paralelo. Ao defenderem que a crise venezuelana seja resolvida “por meios pacíficos, pelo diálogo e pela negociação”, esses governos parecem ignorar, ou fingir ignorar, a natureza do regime que controla Caracas há mais de uma década. Falar em diálogo com a ditadura de Nicolás Maduro é desconsiderar a experiência concreta de um povo que já tentou todas as vias institucionais possíveis e recebeu, como resposta, repressão, fraude, tortura e morte.
A pergunta que se impõe é direta e incômoda: dialogar com quem? Com um governante que se julga acima do bem e do mal? Que fecha qualquer espaço de oposição, encarcera adversários, censura a imprensa e governa sustentado pelo medo? Que tipo de mesa de negociação é possível quando um dos lados usa armas, prisões clandestinas e violência sistemática como método de governo? A defesa abstrata da “paz” torna-se vazia quando aplicada a um regime que fez da guerra contra o próprio povo sua razão de existir.
No caso brasileiro, o constrangimento é ainda maior. O discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ao ecoar a tese do diálogo a qualquer custo, ignora deliberadamente o histórico de crimes do chavismo-madurismo. Que aliás, Lula foi garoto propaganda. Lembram. A que diálogo Lula se refere? Ao diálogo com quem frauda eleições, desafia organismos internacionais, persegue dissidentes e transformou um dos países mais ricos em recursos naturais do mundo na nação mais miserável do continente? Defender neutralidade diante disso não é diplomacia, é omissão política e moral.
A situação se agrava quando surgem elementos ainda mais graves, como as reiteradas acusações de que o regime venezuelano opera como um narco-Estado, tendo Maduro apontado por investigações internacionais como líder do Cartel de los Soles. Nesse contexto, o apelo ao diálogo soa quase como um convite à normalização do crime organizado no poder. O mundo democrático deve sentar-se à mesa com narcotraficantes travestidos de chefes de Estado ou apenas com o “capo” que centraliza o sistema? A pergunta é dura, mas inevitável.
A captura de Maduro pelos Estados Unidos, determinada pelo presidente Donald Trump, foi tratada na nota conjunta como um “precedente perigoso” e uma violação da soberania venezuelana. Que soberania? Curiosamente, não há uma linha sequer dedicada às milhares de vítimas da repressão, aos presos políticos, aos torturados, aos mortos em protestos ou aos milhões de exilados. A soberania invocada parece ser a do regime, não a do povo venezuelano, que há anos clama por libertação.
Ao recorrer à retórica da Organização das Nações Unidas e da não intervenção, esses governos esquecem que o direito internacional também se fundamenta na proteção dos direitos humanos. Quando um Estado se converte em máquina sistemática de violação desses direitos, a tese da “não ingerência” deixa de ser um princípio civilizatório e passa a funcionar como escudo para tiranos.
Nesse cenário, organismos regionais como a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos parecem ter se afastado de qualquer projeto real de desenvolvimento e integração democrática, transformando-se em espaços de autoproteção ideológica. Em vez de pressionar ditaduras e defender populações oprimidas, servem para relativizar crimes e produzir notas diplomáticas estéreis.
O Brasil, em particular, perdeu uma oportunidade histórica de se reposicionar. Poderia ter adotado uma postura independente, clara e firme contra os crimes cometidos pelo regime venezuelano, sem necessariamente endossar todos os métodos americanos. Preferiu, no entanto, alinhar-se à ambiguidade e à autodefesa política, levantando suspeitas incômodas sobre os reais motivos desse silêncio seletivo.
Nos bastidores internacionais, já se comenta que, assim como ocorreu com declarações de antigos aliados do chavismo, novas revelações podem emergir, comprometendo líderes e partidos da região. Nada está descartado. O temor de que Maduro “abra a boca” talvez explique mais do que qualquer argumento jurídico o cuidado extremo de certos governos em evitar condenações explícitas.
Ao final, a nota conjunta não revela compromisso com a paz, mas com a manutenção de uma narrativa conveniente. Falar em diálogo abstrato diante de uma ditadura sanguinária não é neutralidade, é cumplicidade indireta. A história, como sempre, fará seu julgamento, e dificilmente será benevolente com aqueles que, podendo escolher o lado das vítimas, optaram pelo conforto diplomático de proteger algozes.
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