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Política POR ARTHUR FEITOSA

Quando as ditaduras caem, a realidade volta a governar a América Latina

A celebração de venezuelanos em Buenos Aires não foi um ato simbólico isolado, mas o sinal mais recente de um esgotamento histórico. O fim de um ciclo autoritário que prometeu justiça social e entregou pobreza, repressão e fracasso institucional

04/01/2026 às 11h00 Atualizada em 04/01/2026 às 11h14
Por: Arthur Feitosa
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Imagem gerada por inteligência artificial
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O que se viu neste sábado, 3 de janeiro de 2026, ao longo da Avenida 9 de Julho, diante do Obelisco, em Buenos Aires, foi mais do que uma celebração organizada por venezuelanos exilados. Foi um marco político. As bandeiras, a emoção coletiva e o sentimento de esperança não celebravam apenas o fim da era Nicolás Maduro, mas simbolizavam o colapso definitivo de um modelo de poder que marcou a América Latina por décadas.

A queda do regime venezuelano não pode ser compreendida como um evento isolado ou circunstancial. Ela integra um processo mais amplo, gradual e irreversível: o declínio sistêmico das ditaduras e dos regimes personalistas latino-americanos, sejam eles militares, revolucionários ou populistas. Apesar das diferenças retóricas e históricas, todos compartilharam os mesmos vícios estruturais. Concentração extrema de poder, corrosão das instituições, perseguição política e empobrecimento persistente da sociedade.

A história recente da região expõe um padrão inequívoco. O Chile desmontou sua ditadura e ainda busca o equilíbrio entre reformas e estabilidade institucional. A Argentina enterrou o regime militar, atravessou longos ciclos de populismo e hoje enfrenta uma ruptura decisiva com esse legado. O Peru superou o autoritarismo fujimorista. O Paraguai emergiu da longa noite de Stroessner e passou a se destacar pela capacidade de entregar resultados. O Brasil deixou para trás o regime militar, mas ainda convive com o risco de novas formas de autoritarismo institucional, muitas vezes mascaradas de legalidade.

Alguns países resistiram mais tempo. Cuba permanece congelada no passado. Nicarágua e Bolívia seguem em perigosa oscilação. Ainda assim, a trajetória regional é clara. Regimes autoritários não sobrevivem indefinidamente quando confrontados pelo colapso econômico, pela diáspora em massa e pelo esgotamento social.

A derrota do chavismo não representa apenas a queda de um governante ou de um partido. Representa a falência de um projeto ideológico que prometeu igualdade e entregou escassez, proclamou soberania enquanto produziu dependência externa e discursou sobre justiça social enquanto protegia uma elite política blindada do sofrimento popular.

Nesse vazio, ganha força uma reorientação pragmática. A crescente preferência popular por governos de centro-direita não nasce do radicalismo, mas da frustração. Menos ideologia, mais governança. Menos promessas, mais resultados. Disciplina fiscal, instituições funcionais, segurança jurídica, estímulo à iniciativa privada e políticas públicas avaliáveis voltam ao centro do debate.

A Argentina sob Javier Milei tornou-se o laboratório mais observado desse movimento. Caminhar hoje por Buenos Aires é ouvir algo raro na política latino-americana. Otimismo cauteloso. Não se trata de entusiasmo cego, mas de alívio. Após décadas de inflação crônica, irresponsabilidade fiscal e retórica populista, parte expressiva da sociedade percebe, pela primeira vez em uma geração, um horizonte de previsibilidade.

O fenômeno não é isolado. O Uruguai consolidou sua credibilidade institucional. O Chile revisita os custos de excessos ideológicos. O Equador tenta romper com a permissividade criminal. A Colômbia enfrenta o desgaste de narrativas que romantizaram movimentos armados. A região parece redescobrir uma verdade simples, muitas vezes ignorada. Bom governo é aquele que funciona.

Para o Brasil, as cenas de Buenos Aires são um alerta incômodo. Democracias não sobrevivem por inércia. Nenhuma República resiste ao descrédito prolongado de suas instituições. Nenhuma nação prospera quando o Estado existe primordialmente para se proteger, e não para servir à sociedade.

O que ocorreu na Avenida 9 de Julho não foi folclore nem exceção. Foi o símbolo de uma inflexão continental. Um lembrete de que sociedades não esquecem indefinidamente, não perdoam eternamente e não aceitam o declínio como destino.

Quando as ditaduras começam a cair, o caos não se instala. O que se segue é o silêncio constrangido dos que nelas acreditaram e, nas ruas, o som inequívoco de povos retomando o controle do próprio futuro.

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Sobre Arthur Feitosa - Executivo e articulista político do portal Gazeta Hora1
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