
A sonolência ao volante se tornou um dos maiores riscos nas estradas brasileiras, embora ainda passe despercebida nas estatísticas oficiais. Pesquisas apontam que até 40% dos acidentes em rodovias federais têm relação direta com o sono, mas apenas 3% são registrados dessa forma. Quando esses dados são comparados aos mais de 35 mil mortos no trânsito por ano, o impacto é assustador: cerca de 14 mil vidas podem estar sendo perdidas por um problema evitável.
O tema segue tratado como secundário, apesar de sua gravidade. A sonolência não deixa sinais claros, não aparece no bafômetro e muitas vezes é confundida com “distração” ou “reação tardia”, categorias que representam quase um terço dos acidentes com vítimas. É uma epidemia silenciosa, que não estampa manchetes, mas destrói famílias e interrompe carreiras.
Nos últimos anos, o país começou a dar passos importantes. A Resolução CONTRAN 927/22 tornou obrigatória a avaliação de risco de apneia do sono para motoristas profissionais, especialmente das categorias C, D e E. Ainda assim, faltam exames acessíveis, profissionais capacitados e, principalmente, uma cultura que reconheça o descanso como parte essencial da segurança no trânsito. Hoje, tecnologias já permitem investigar ronco e apneia dentro do próprio caminhão, durante a rotina de trabalho.
Especialistas defendem que o Brasil precisa repetir, com o sono, o que fez com as campanhas contra o álcool. Motoristas profissionais têm até 18% mais acidentes ligados à fadiga, muitas vezes pressionados por jornadas longas e metas rígidas. Iniciativas como o programa “Volta Segura – motorista que dorme bem volta para casa” mostram que a união entre governo e empresas pode reduzir riscos. Para médicos do tráfego, tratar apneia e valorizar o sono é tão importante quanto fiscalizar. Dormir bem salva vidas — e pode ser a chave para diminuir milhares de mortes todos os anos.
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