
Há quase dois meses, o Brasil assiste, perplexo e inerte, ao silêncio ensurdecedor que envolve a possível liquidação do Banco Master. Nenhuma decisão conclusiva, nenhuma autoridade assumindo responsabilidades, nenhuma explicação clara oferecida à sociedade. O tempo, mais uma vez, converte-se em estratégia política, enquanto o esquecimento passa a funcionar como método de gestão. Nesse contexto, o povo, que deveria atuar como agente ativo da construção política e institucional do país, limita-se a observar, resignado, como se fosse mero espectador de um processo que não lhe dissesse respeito.
Esse estado de coisas não pode ser explicado como simples desorganização administrativa ou falha pontual de governança. O que se revela é algo mais profundo e inquietante. Trata-se de uma anarquia institucional disfarçada de normalidade, na qual regras deixam de valer, competências se confundem e a excepcionalidade passa a ser tratada como rotina.
O Poder Judiciário, em especial, parece ter ultrapassado limites que, até pouco tempo atrás, eram considerados intransponíveis em uma democracia constitucional. Avança sobre atribuições do Executivo, neutraliza o Legislativo, ignora normas legais, esvazia agências reguladoras e atropela decisões técnicas, inclusive aquelas emanadas do Banco Central, órgão cuja autonomia existe justamente para proteger o sistema financeiro de interferências políticas. Governa-se por decisões opacas, sem voto popular, sem mecanismos efetivos de contenção e, cada vez mais, sem qualquer consequência prática. A opinião pública torna-se irrelevante. O contraditório passa a ser tratado como incômodo. A separação dos Poderes, princípio estruturante da Constituição Federal, converte-se em retórica vazia, destituída de eficácia real.
Ainda mais graves são as suspeitas amplamente debatidas de conflitos de interesse envolvendo ministros do Supremo Tribunal Federal que manteriam relações com dirigentes do próprio Banco Master. Caso tais vínculos se confirmem, o país enfrentará um quadro institucional alarmante. Autoridades incumbidas de zelar pela legalidade e pela Constituição poderão estar utilizando seus cargos em benefício próprio. A interferência em uma decisão técnica do Banco Central não constitui mero detalhe burocrático. Representa o ponto de ruptura entre o império da lei e a consolidação de um autoritarismo judicial sem freios.
Enquanto isso, a população é deliberadamente empurrada para disputas políticas superficiais, transformadas em verdadeiras torcidas organizadas. Lula, Bolsonaro, Tarcísio, Zema, Ratinho Júnior e Caiado são lançados ao debate como se protagonizassem finais de campeonato, mas sem qualquer consequência prática imediata. Forma-se, assim, uma cortina de fumaça eficaz, capaz de distrair, dividir e esvaziar o debate essencial. O problema real é estrutural, institucional e muito mais profundo do que qualquer disputa eleitoral episódica.
Os atores desse arranjo disfuncional contam com o tempo, com o desgaste da indignação e com a memória curta da sociedade. Apostam na apatia popular como garantia de impunidade. Apostam, inclusive, que aqueles que deveriam guardar a Constituição permanecerão protegidos por suas próprias togas, certos de que não haverá reação significativa.
A indignação legítima deveria concentrar-se justamente nesse modelo autoritário e disfuncional, que destrói a previsibilidade, corrói a segurança jurídica e inviabiliza qualquer horizonte de normalidade institucional. Não se trata de esquerda contra direita, nem de governo contra oposição. Trata-se de um país inteiro comprimido por um sistema que perdeu completamente seus mecanismos de autocontenção.
As consequências são concretas e já se fazem sentir: prejuízos econômicos, insegurança nas aplicações financeiras, retração de investimentos, descrédito institucional e a erosão lenta, porém contínua, da confiança nacional. Caminhamos, como nação, por um dos piores caminhos possíveis, aquele em que o improviso substitui a lei e o poder se exerce sem responsabilidade.
Jamais haverá um projeto sólido de país enquanto persistir a lógica do poder pelo poder, do uso dos cofres públicos como instrumento de enriquecimento pessoal e da ausência de qualquer visão de longo prazo. Não se trata do “Zé” ou do “Mané”, tampouco de personagens individuais. Trata-se do Brasil enquanto projeto coletivo.
Já deveríamos ter aprendido com exemplos como Coreia do Sul, Canadá, Nova Zelândia e tantas outras nações que optaram por construir instituições fortes, previsíveis e respeitadas. O Brasil não carece de território, recursos naturais ou capital humano. O que nos falta é reação.
É urgente um choque de consciência nacional. Um novo bairrismo, não regional nem ideológico, mas republicano. A compreensão, enfim, de que este vasto território só terá futuro se for, antes de tudo, um lugar digno, seguro e justo para seus próprios habitantes.
O silêncio do povo não é neutralidade.
É autorização.
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