
O cerco parece se fechar, não com algemas, mas com perguntas incômodas. A relação pessoal entre o ministro Alexandre de Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro, figura central no escândalo bilionário da ordem de R$ bilhões do Banco Master, entrou no radar público não por um despacho judicial, mas por um jantar. Um jantar elegante, em mansão de R$ 36 milhões, no Lago Sul, onde a discrição deveria ser o prato principal, mas não foi.
Moraes não negou conhecer Vorcaro. Tampouco negou a existência de contratos entre o Banco Master e o escritório de advocacia da família, ligado à sua esposa, Viviane Barci Moraes. O ponto sensível está no não dito: a omissão do jantar ocorrido no final de 2024, quando já vigorava um contrato de R$ 129 milhões entre o banco e o escritório familiar. A pergunta que martela não é se houve conversa imprópria, é se a cena, por si só, já não é imprópria.
O cenário ajuda a entender o incômodo. Vorcaro, em seus tempos de muita, talvez excessiva, liberdade social, recebia políticos e autoridades em noites regadas a conversa amena. Em uma delas, lá estava Moraes, o único ministro do STF entre cerca de vinte convidados, todos homens, incluindo expoentes do Centrão, deputados e ex-ministros. Se fosse um filme, seria aquele momento em que a trilha sonora muda e o espectador percebe que algo está fora do tom.
Não se trata de acusar crime onde não há prova. Trata-se de avaliar o dano institucional. A toga, diferentemente do paletó político, não pode circular em ambientes onde a aparência de conflito de interesses é gritante. É como um árbitro que aceita jantar na casa do patrocinador do campeonato: pode até apitar corretamente depois, mas ninguém aplaude com convicção.
Por que Moraes estava ali? Qual o motivo do encontro? Quem mais participou e com que interesses? Essas perguntas não são fofoca, são higiene republicana. O “inferno astral” que hoje ronda o ministro, sua esposa e o escritório da família não nasceu do nada. Ele é filho legítimo da falta de transparência. Em tempos de desconfiança generalizada, o silêncio não protege; amplifica.
É possível, como relatam participantes, que as conversas tenham sido banais. Mas a política brasileira já ensinou que o problema raramente é o que se diz à mesa; é quem se senta nela. O STF, guardião da Constituição, vive de autoridade moral tanto quanto jurídica. E autoridade moral não combina com jantares em mansões de clientes bilionários da família.
O humor aqui é amargo, mas necessário: não é preciso discutir se falaram do Banco Master naquela noite. Bastou a fotografia mental do encontro para criar a dúvida. E, no serviço público de alto nível, a dúvida já é um veredito incômodo. A toga pode até sair ilesa do processo, mas a confiança pública, essa não costuma aceitar convite para jantar duas vezes.
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