
Neste segundo artigo sobre o comportamento padrão da política brasileira, remeto ao passado recente que redundou na eleição de Jair Bolsonaro e aos desdobramentos provocados por um estilo de governar duro, inédito e frontalmente contrário às práticas tradicionais da administração pública nacional. Antes, porém, é preciso revisitar o terreno pantanoso onde essa história foi gestada. Escaramuças, armadilhas, tocaias políticas, jogos de sedução, compra explícita de apoio parlamentar, loteamento de cargos e a perpetuação de currais eleitorais controlados por supostos “líderes” regionais. Este talvez seja o maior mal estrutural responsável pelo subdesenvolvimento endêmico do país, não a ausência de recursos, mas a deformação moral e institucional da política.
Ao percorrer a história política brasileira, constato, com consternação, que nossas maiores crises não decorrem apenas de erros pontuais de governos ou conjunturas internacionais adversas. Elas são, sobretudo, fruto de um padrão recorrente de rupturas, traições e personalismo, no qual projetos nacionais, estaduais e municipais são sistematicamente sacrificados no altar das conveniências imediatas do poder individual. É como se, para muitos agentes públicos, o “sol político” só pudesse nascer uma única vez e tudo o mais se tornasse irrelevante após a conquista do cargo. O trabalho entendido como missão pública, como legado institucional, não encontra espaço nessa jornada. Assim, reforça-se a constatação amarga de que o Brasil não sofre por falta de oportunidades, mas pela incapacidade histórica de sustentar compromissos duradouros, respeitar pactos e preservar instituições acima de vaidades pessoais. O convite à reflexão se impõe. Por que insistimos em repetir os mesmos ciclos e qual é o custo dessa repetição para o futuro do país?
O impeachment de Dilma Rousseff, oficialmente fundamentado nas chamadas “pedaladas fiscais”, representou, na prática, uma ruptura traumática e uma traição explícita de aliados centrais de seu próprio projeto político. Com sua saída, assumiu o vice-presidente Michel Temer, que herdou um Brasil fragmentado, economicamente exaurido e politicamente desacreditado. Ainda assim, seu governo conseguiu produzir alguns avanços pontuais, especialmente na área fiscal e administrativa, não sem antes experimentar do mesmo veneno que o conduziu ao poder. Escândalos de corrupção, gravações clandestinas em encontros obscuros com expoentes da bandidagem de colarinho branco e negociações nos porões da República inviabilizaram qualquer pretensão de continuidade política, abortando seu projeto de reeleição e aprofundando a descrença da população no sistema.
Nesse ambiente de falência moral e institucional, travou-se uma guerra política sem precedentes na história recente do Brasil. Parte considerável da sociedade passou a enxergar nos sucessivos governos de esquerda um avanço deliberado em direção a um projeto ideológico que buscava remodelar o Estado brasileiro, com forte viés autoritário e inspiração socialista. Foi nesse vácuo que emergiu Jair Bolsonaro, até então um deputado federal sem projeção nacional relevante, mas que vocalizava temas abandonados pela política tradicional. Família, honra, moral, costumes, combate à corrupção e respeito ao dinheiro do contribuinte.
Houve tentativas de todas as naturezas para impedir sua eleição. O destino, porém, interveio de forma trágica e simbólica. O atentado contra sua vida transformou-se em um poderoso catalisador político e, de maneira inédita, Bolsonaro foi eleito presidente com uma campanha de baixíssimo custo, impulsionada quase exclusivamente pela mobilização popular e pelas redes sociais.
Paradoxalmente, seus aliados de primeira hora tornaram-se os pioneiros da traição ao novo projeto de país. João Doria, então governador de São Paulo, incapaz de submeter o governo federal à lógica de poder do estado mais rico da federação, foi o primeiro a romper a aliança que ajudara a eleger Bolsonaro. A partir daí, o coro dos descontentes só cresceu. Figuras que não encontraram espaço no protagonismo nacional, como Joice Hasselmann e Alexandre Frota, entre outros, passaram a atacar o mesmo projeto que os havia alçado à vida pública. A ironia foi implacável. Todos acabaram severamente punidos pelos eleitores que antes os haviam consagrado.
A história recente demonstra que, no Brasil, quando um governante se recusa a ceder aos apelos da velha bandalheira política, o sistema reage com ferocidade. O adversário deixa de ser apenas opositor e passa a ser tratado como inimigo. Nesse contexto, o Supremo Tribunal Federal e, sobretudo, o Tribunal Superior Eleitoral assumiram protagonismo político inédito. A campanha de reeleição de Bolsonaro foi marcada por uma atuação eleitoral do TSE que, para muitos, extrapolou os limites da neutralidade institucional. Ao candidato adversário, Luiz Inácio Lula da Silva, foi permitido quase tudo. Ao presidente em exercício, impôs-se o peso máximo de interpretações personalizadas da lei por aqueles que detinham o poder de fazê-lo.
Esse episódio ainda será devidamente julgado pela história, com o distanciamento que os fatos exigem. O que já se pode afirmar é que o processo eleitoral de 2022 deixou cicatrizes profundas na confiança popular nas instituições. Soma-se a isso o fato de que Lula foi retirado da prisão por decisões judiciais baseadas em nulidades processuais, após ter sido condenado em três instâncias por corrupção, formação de quadrilha e liderança de organização criminosa. Na atual gestão, volta a ser alvo de graves acusações, mas o rigor que o levou à prisão no passado parece não produzir mais efeitos diante do caos econômico, do retrocesso institucional e do esvaziamento da esperança nacional.
O Brasil segue, assim, aprisionado em seu próprio ciclo histórico. Troca-se o personagem, mas preserva-se o método. Muda-se o discurso, mas mantém-se a prática. Enquanto isso, o país se afasta, mais uma vez, da possibilidade de alcançar um padrão civilizatório compatível com a grandeza de seu povo.
Que venham, portanto, os próximos capítulos e que não nos falte memória para compreendê-los.
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