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Brasil LIBERDADE/EXPRESSÃO

IA, deboche e risco jurídico: o vídeo de Marcos do Val que provocou o poder

Ao usar inteligência artificial para retratar Lula da Silva e ministros do STF presos, o senador Marcos do Val transforma sua denúncia de perseguição em sátira política — mas reacende questionamentos sobre os limites da provocação diante do Alexandre de Moraes e da Corte

27/12/2025 às 15h06
Por: Douglas Ferreira
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A sátira de Do Val que viralizou no Z - Foto: Reprodução
A sátira de Do Val que viralizou no Z - Foto: Reprodução

O peso político do vídeo: narrativa, vitimização e engajamento

Do ponto de vista político e comunicacional, o vídeo cumpre bem sua função. Ele:

  • reforça a narrativa de perseguição já adotada por Do Val;

  • dialoga diretamente com um público que desconfia do STF e do governo;

  • amplia seu alcance nas redes sociais, justamente num momento em que o senador está afastado das atividades parlamentares.

Em outras palavras, funciona como peça de propaganda pessoal e como tentativa de reocupar espaço no debate público, mesmo estando licenciado do mandato por decisão médica. É a política adaptada à era dos algoritmos: curto, provocativo, viral e emocional.

O peso jurídico: aqui mora o problema

Do ponto de vista jurídico, porém, o cenário muda radicalmente. Marcos do Val já é investigado por suposta tentativa de obstrução de investigações, incitação e ataques institucionais ao STF e à Polícia Federal. Seu histórico recente inclui:

  • descumprimento de medidas cautelares,

  • viagem ao exterior sem autorização judicial,

  • divulgação de dados pessoais de autoridades envolvidas em investigações.

Dentro desse contexto, o vídeo não surge no vácuo. Ele pode ser interpretado por investigadores e pelo próprio STF como:

  • provocação direta à Corte,

  • tentativa de deslegitimar decisões judiciais,

  • ou até continuidade de uma estratégia de ataque institucional, ainda que em linguagem satírica.

Mesmo sendo uma obra de ficção produzida por IA, o conteúdo pode ser enquadrado como ato político com potencial de incitação, especialmente porque reforça a ideia de que ministros e o presidente deveriam estar presos, algo sensível em um país que vive tensão permanente entre Poderes.

Liberdade de expressão ou munição contra si mesmo?

A defesa natural seria a da liberdade de expressão e da crítica política, inclusive por meio do humor. No entanto, no atual ambiente jurídico brasileiro, essa linha é estreita e instável, sobretudo para alguém que:

  • está sob investigação;

  • já teve medidas cautelares impostas;

  • e tem histórico de confronto direto com o STF.

Em termos simples: o vídeo pode não gerar uma nova acusação imediata, mas pode ser usado para reforçar o entendimento de que Do Val mantém uma postura reiterada de confronto e desrespeito às decisões judiciais. Isso pesa negativamente em avaliações futuras sobre revogação total de medidas, arquivamento de procedimentos ou até em eventuais denúncias.

Conclusão: engraçado para a internet, perigoso para o processo

O vídeo de IA de Marcos do Val é um sucesso nas redes, uma peça criativa de sátira política e um prato cheio para quem gosta de ver o poder sendo ridicularizado. Mas, juridicamente, ele funciona como um gesto temerário, quase um recado atravessado ao Judiciário: “não recuei e não vou recuar”.

Em um momento em que o senador deveria atuar para reduzir tensões e demonstrar colaboração institucional, optou pelo caminho oposto: o da provocação pública, do deboche simbólico e do enfrentamento narrativo. Pode render curtidas, compartilhamentos e aplausos virtuais — mas não costuma render indulgência judicial.

No Brasil de hoje, rir do sistema pode até viralizar. Mas desafiar o sistema enquanto se está sob investigação raramente termina em comédia.

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