
Jair Messias Jair Bolsonaro passou por um novo procedimento cirúrgico nesta quinta-feira, em Brasília, e saiu da sala de cirurgia em condições estáveis. A operação, no entanto, resolve apenas parte do problema. O próprio médico admite que uma nova intervenção não está descartada, o que mantém o ex-presidente sob observação clínica e, ao mesmo tempo, no centro do noticiário político.
A cirurgia foi realizada no Hospital DF Star e teve como objetivo a correção de hérnia inguinal bilateral, condição que já vinha causando desconforto. O procedimento começou por volta das 9h40, durou cerca de três horas e transcorreu sem intercorrências, segundo a equipe médica. Bolsonaro recebeu anestesia geral, acordou ainda pela manhã e foi encaminhado ao quarto.
De acordo com o cirurgião Cláudio Birolini, foi colocado um reforço de polipropileno na parede abdominal, técnica comum nesse tipo de correção. O pós-operatório imediato prevê cuidados com analgesia, fisioterapia e prevenção de tromboembolismo, e a previsão é de que o ex-presidente permaneça internado ao menos até a próxima segunda-feira, 29 de dezembro.
O ponto que mantém o alerta ligado é outro. Os médicos avaliam a possibilidade de uma nova intervenção cirúrgica para tratar as crises recorrentes de soluço que Bolsonaro enfrenta há meses. Segundo Birolini, trata-se de um sintoma que preocupa não pela gravidade imediata, mas pelo impacto direto na qualidade de vida, especialmente no sono. A decisão sobre um novo procedimento deve ser tomada após a avaliação clínica prevista para segunda-feira.
O contexto em torno da cirurgia, porém, vai muito além do prontuário médico. Bolsonaro passou pelo procedimento um dia após ser autorizado a deixar a Superintendência da Polícia Federal, onde cumpre pena, depois de ter sido condenado pelo Supremo Tribunal Federal a 27 anos e 3 meses de prisão, por suposta tentativa de golpe de Estado. A coincidência de datas reforça a percepção de que saúde, Justiça e política seguem entrelaçadas na trajetória do ex-presidente.
Mesmo internado, Bolsonaro não abriu mão de participar do jogo político. Enquanto ele estava no centro cirúrgico, o senador Flávio Bolsonaro leu, em frente ao hospital, uma carta escrita pelo pai, na qual o ex-presidente confirma a indicação do filho como pré-candidato à Presidência da República em 2026. A mensagem mistura tom pessoal, retórica de injustiça e estratégia de sucessão.
Na carta, Bolsonaro afirma ter pago “um preço alto, com a saúde e a família” para defender o que acredita ser o melhor para o país e diz transferir ao filho “o que há de mais importante na vida de um pai”. A cena, transforma um momento médico em ato político simbólico, reforçando a narrativa de resistência e continuidade.
Do ponto de vista analítico, o episódio revela um padrão já conhecido. A saúde de Bolsonaro frequentemente deixa de ser apenas questão clínica e se converte em instrumento de comunicação política, mobilizando apoiadores, ocupando o noticiário e mantendo seu nome em evidência, mesmo diante de uma perseguição implacável do STF.
No curto prazo, o foco está na recuperação e na decisão sobre uma possível nova cirurgia. No médio e longo prazo, o que se observa é a tentativa de Bolsonaro de administrar o corpo fragilizado sem abrir mão do protagonismo político, delegando a herança eleitoral ao filho, mas mantendo para si o papel de símbolo. Entre bisturis, cartas e discursos, o ex-presidente segue operando em dois campos ao mesmo tempo: o da medicina e o da política.
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