
A cirurgia do ex-presidente Jair Messias Bolsonaro, marcada para a manhã do dia 25, no Hospital DF Star, tornou-se rapidamente mais um episódio cercado de ruído político, interpretações enviesadas e desinformação deliberada. Trata-se, objetivamente, de um procedimento médico eletivo, tecnicamente denominado herniorrafia inguinal bilateral, indicado para correção de hérnias na região da virilha, condição comum, dolorosa e que pode gerar complicações se não tratada.
Do ponto de vista clínico, o caso é simples. O boletim médico informa que Bolsonaro passou por exames pré-operatórios, avaliação cardiológica e análise de risco cirúrgico, sendo considerado apto para o procedimento. A cirurgia será realizada sob anestesia geral, com duração estimada de cerca de quatro horas, e o período de internação previsto varia entre cinco e sete dias, dentro do padrão médico para esse tipo de intervenção. Não há, portanto, qualquer excepcionalidade do ponto de vista da medicina.
A controvérsia surge no campo jurídico e político. Bolsonaro foi transferido da Superintendência da Polícia Federal para o hospital após autorização expressa do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. Aqui, convém esclarecer um ponto central, a autorização não é um favor, tampouco um gesto de benevolência, mas um dever legal. Pessoas sob custódia do Estado não perdem o direito à saúde, garantido pela Constituição.
A tentativa de transformar a cirurgia em privilégio ou manobra política ignora o básico. O Estado tem responsabilidade objetiva sobre a integridade física de qualquer pessoa sob sua guarda. Negar ou retardar um procedimento médico indicado poderia gerar consequências jurídicas graves, inclusive para o próprio magistrado responsável. A autorização, portanto, não é discricionária, é obrigatória diante do laudo médico.
Outro ponto explorado de forma sensacionalista diz respeito à escolta e à vigilância policial. Bolsonaro deixou a PF escoltado por viaturas e batedores, deu entrada no hospital pela garagem e permanecerá sob vigilância de policiais durante toda a internação. Nada disso foge ao protocolo. Trata-se de procedimento padrão para qualquer custodiado em situação semelhante, sobretudo alguém com visibilidade pública e riscos associados à segurança.
Há ainda especulações sobre a data, o Natal. Também aqui não há mistério. Cirurgias não escolhem feriados, escolhem necessidade clínica. Se os exames indicaram a aptidão e a urgência relativa do procedimento, o calendário civil torna-se irrelevante. O corpo humano não respeita feriados, e a medicina tampouco deveria respeitar narrativas políticas.
O que chama atenção, de fato, é como um ato médico rotineiro se transforma em campo de batalha simbólico. Para críticos de Bolsonaro, a cirurgia vira suspeita. Para apoiadores, vira prova de perseguição. Para o Estado, deveria ser apenas o cumprimento frio da lei e do dever constitucional. Quando tudo vira disputa ideológica, até um bisturi passa a ser interpretado como arma política.
Há, ainda, a possibilidade de realização de um procedimento não cirúrgico para aliviar crises de soluços, condição já enfrentada por Bolsonaro em outros momentos. Novamente, trata-se de avaliação clínica, não de decisão política. Médicos decidem com base em sintomas, não em manchetes.
No fim, o episódio revela menos sobre a cirurgia e mais sobre o país. Um Brasil em que atos médicos precisam ser explicados como se fossem decisões de Estado, e onde o Judiciário, a política e a saúde se misturam em um caldo de desconfiança permanente. A cirurgia de Bolsonaro não é o problema. O problema é a incapacidade coletiva de separar direito à saúde, dever do Estado e disputa política. Isso, sim, merece atenção.
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