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O sensus fidei, ou sentido da fé

O livro Quando os cristãos (não) sentem a fé, e o ‘não’ está entre parênteses, nasceu sobretudo por duas razões: a primeira, para celebrar os 60 anos da Constituição Dogmática Lumen Gentium; a segunda decorre de uma conversa informal com o cardeal Mário Grech, em que ele dizia que ‘todos devem participar no processo de discernimento’ no contexto do Sínodo sobre a Sinodalidade.

24/12/2025 às 07h10
Por: Josenildo Melo Fonte: https://www.vaticannews.va/pt.html
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Foto: VaticanNews/UCP
Foto: VaticanNews/UCP

Sínodo: “Quando os cristãos (não) sentem a fé”

O padre Tiago Freitas procura, no seu novo livro, discernir o sentido da fé com estilo sinodal. “O estudo que está presente neste ensaio tenta afirmar que há diferentes graus e diferentes competências neste processo de discernimento”, afirma o sacerdote português.

Rui Saraiva – Portugal

O sensus fidei, ou sentido da fé, como princípio teológico da sinodalidade, é aquilo que nos apresenta o padre Tiago Freitas no seu livro Quando os cristãos (não) sentem a fé. Discernir com estilo sinodal. É precisamente para que a fé seja sentida na vida quotidiana de cada cristão que o Papa Francisco deu início ao Sínodo sobre a sinodalidade, que entrou agora na sua fase de implementação.

Discernir com todos

O sacerdote português sustenta que, no processo sinodal em curso, é importante ter em conta os “diferentes graus de compromisso das pessoas para com a comunidade”. O seu livro nasce a propósito dos 60 anos da Lumen Gentium, mas também de uma conversa com o cardeal Grech, responsável pela Secretaria-Geral do Sínodo, na qual afirmou que “todos devem participar no processo de discernimento” no âmbito deste Sínodo.

“O livro Quando os cristãos (não) sentem a fé, e o ‘não’ está entre parênteses, nasceu sobretudo por duas razões: a primeira, para celebrar os 60 anos da Constituição Dogmática Lumen Gentium; a segunda decorre de uma conversa informal com o cardeal Mário Grech, em que ele dizia que ‘todos devem participar no processo de discernimento’ no contexto do Sínodo sobre a Sinodalidade. Mas, como sabemos, há diferentes graus de compromisso das pessoas para com a comunidade, ou até, num sentido mais amplo, no modo como vivem a sua fé. Se alguns participam semanalmente, dominicalmente, nos sacramentos e estão comprometidos com atividades da comunidade, outros apenas foram batizados, mas depois, na prática, vivem como não crentes. E, por isso, é legítimo perguntar se todas as pessoas são igualmente competentes no processo de discernimento”, afirma.

O exercício do sentido da fé

O padre Tiago Freitas recorda que os critérios apontados pela Igreja para o exercício do sentido da fé são exigentes, mas, quando observamos a “multidão de crentes ou de não crentes, é difícil esperar que eles cumpram exatamente os critérios”, assinala o sacerdote.

“Se olharmos para alguns dos documentos da Igreja, os critérios que são apontados para um verdadeiro exercício do sentido da fé — isto é, aquela capacidade inata para discernir, para intuir quando algo vem de Deus ou não — são exigentes. A escuta da Palavra de Deus, a participação na vida da Igreja, a adesão ao magistério, uma vida de santidade ou ainda a colaboração para que a Igreja cresça são critérios que poderíamos aplicar ou esperar destes cristãos mais comprometidos. Mas, quando olhamos para esta multidão de crentes ou de não crentes, é difícil esperar que eles cumpram exatamente os critérios”, assinala o sacerdote da Arquidiocese de Braga.

Diferentes competências no discernimento

Este ensaio do padre Tiago Freitas procura afirmar que há diferentes graus e diferentes competências neste processo de discernimento.

“O estudo que está presente neste livro, neste ensaio, tenta afirmar que há, na verdade, diferentes graus e diferentes competências neste processo de discernimento. Por um lado, temos cristãos que foram batizados, mas que depois vivem, na prática, como não crentes; contudo, há neles uma semente da Palavra que pode, em determinados momentos, vir ao de cima. É uma intuição inata na pessoa. O segundo grupo é o daqueles que foram batizados e em quem o batismo produz efeitos, ainda que depois, no dia a dia, não vivam de modo tão comprometido, salvo em momentos de festa, como um batismo, um casamento ou até um funeral; existe, porém, uma ligação cultural com o Evangelho e também um desejo de se manter próximo da comunidade. O mais complicado talvez seja pensar nos não crentes. Ainda assim, os não crentes podem participar, até pelo bom senso, isto é, por este bom espírito de querer colaborar com a Igreja e que, através da sua leitura da realidade cultural, podem ser provocadores para a Igreja. Podem ser uma espécie de voz profética que oferece à Igreja elementos essenciais para o discernimento”, sublinha.

“O bom senso, o bom espírito, é a porta de ingresso no senso da fé, no sentido da fé. É um ensaio muito breve, mas que tenta chegar, aproximar-se e corresponder a uma pergunta determinante no processo da sinodalidade: dar resposta a um legado que o Papa Francisco deixou — este legado espiritual de discernir o Espírito Santo presente na Igreja Católica”, declara o padre Tiago Freitas.

Tiago Freitas tem 41 anos e é sacerdote da Arquidiocese de Braga. É docente da Universidade Católica Portuguesa, onde leciona Eclesiologia, Mariologia, Ecumenismo e Diálogo Inter-Religioso. É doutorado em Teologia Pastoral pela Pontifícia Universidade Lateranense, em Roma, com a tese Colégio de Paróquias.

Entretanto, em Portugal, os bispos, na sua reunião plenária do passado mês de novembro, reforçaram a importância da implementação do Documento Final do Sínodo. Marcaram um II Encontro Sinodal Nacional para o dia 10 de janeiro de 2026, como informou o secretário da Conferência Episcopal Portuguesa, padre Manuel Barbosa.

“No que se refere ao processo sinodal em curso, a Assembleia reforçou a importância de implementar o Documento Final da XVI Assembleia Geral do Sínodo dos Bispos no seio das comunidades, seguindo as pistas publicadas pela Secretaria-Geral do Sínodo para esta fase de receção sinodal, uma vez que é na vida concreta das Igrejas locais que se experimentam novas práticas e estruturas para concretizar as decisões tomadas, envolvendo todos os membros da Igreja, rumo à Assembleia Eclesial de 2028. Como parte importante deste caminho de escuta do Espírito, da conversão das relações e da corresponsabilidade diferenciada dos batizados, foi reforçada a relevância do II Encontro Sinodal Nacional, agendado para 10 de janeiro de 2026, no qual deverão participar os bispos, as equipas sinodais e outros organismos diocesanos”, salientou.

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Sobre Josenildo Nascimento Melo é jornalista, estudou direito, é Bacharel em Serviço Social pelo ICF - Instituto Camillo Filho. É também licenciado em Filosofia pelo ICESPI - Instituto Católico de Estudos Superiores do Piauí.
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