
O caso Banco Master deixou de ser apenas um escândalo financeiro para virar um teste de estresse institucional. As reportagens que revelaram que Alexandre de Moraes procurou o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, para tratar da situação do banco, caíram como uma bomba em Brasília. Não porque ministros não conversem entre si, isso acontece toda hora, mas porque o contato ocorreu no exato momento em que o Banco Central já apurava fraudes bilionárias, estimadas em mais de R$ 12 bilhões, que acabariam levando à liquidação da instituição e à prisão de executivos.
O episódio ganha outra dimensão quando se soma um dado impossível de ignorar: o contrato de cerca de R$ 130 milhões entre o Banco Master e o escritório de advocacia da esposa de Alexandre de Moraes. Mesmo sem prova de atuação formal junto aos órgãos públicos, o simples cruzamento entre interesses privados e a movimentação de um ministro do Supremo já seria suficiente, em qualquer democracia madura, para acender todos os alertas. Aqui, acendeu, mas foi tratado, inicialmente, como ruído.
Alexandre de Moraes não é um ministro comum. Nos últimos anos, tornou-se o centro de gravidade do sistema político-jurídico brasileiro. Decide crises, conduz investigações, impõe medidas duras, enfrenta atores poderosos e raramente é contestado. Esse acúmulo de funções e protagonismo ajuda a explicar o fenômeno clássico da hýbris — a arrogância que nasce quando alguém passa a acreditar que os limites não se aplicam mais a ele. A hýbris não surge do autoritarismo explícito, mas da convicção silenciosa de que tudo pode ser justificado “em nome da estabilidade”.
A filosofia antiga ajuda a entender o momento. A imagem da espada de Dâmocles não fala de punição imediata, mas de risco permanente. Quanto maior o poder concentrado, menor a margem para erros humanos. E erros acontecem. O problema é que, no topo, eles não são pequenos. Um telefonema fora de hora, um contrato mal explicado, uma confiança excessiva na própria autoridade, tudo isso vira peso.
No Congresso, o desconforto virou movimento político. O senador Alessandro Vieira anunciou a intenção de articular uma CPI para investigar o contrato do Banco Master com o escritório ligado à família de Alexandre de Moraes e possíveis interferências indevidas. O simples fato de um ministro do Supremo virar alvo potencial de investigação parlamentar já indica que algo mudou no ambiente.
Dentro do próprio STF, a reação foi de contenção. Gilmar Mendes saiu em defesa pública de Alexandre de Moraes, afirmando ter “absoluta confiança” no colega e dizendo que o caso demonstraria que “as instituições funcionam”, já que houve intervenção do Banco Central, investigação e prisões. Mais do mesmo, tá tudo bem na cabeça do Gilmar, tá tudo uma maravilha. Logo no Brasil? çei
O problema central não é jurídico, é político e moral. A Justiça não vive apenas de decisões técnicas, mas de credibilidade. Quando um ministro concentra poder, acumula protagonismo e passa a circular em zonas cinzentas, a confiança pública começa a rachar. Não é uma queda súbita. É um desgaste progressivo, silencioso, quase invisível no começo.
A imagem escolhida para ilustrar esta coluna, Alexandre de Moraes e sua esposa sentados no trono, com uma pedra pesada chamada Banco Master prestes a cair, não é exagero gráfico. É metáfora. O poder pode até parecer sólido, mas sempre há algo acima dele. A história ensina que a hýbris precede o declínio. Não porque o personagem seja fraco, mas porque passa a acreditar que é inalcançável. E ninguém é.
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