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Brasil POR ARTHUR FEITOSA

Um Brasileiro como poucos

Dom Pedro II e o Brasil que escolheu trair a própria grandeza

17/12/2025 às 13h40 Atualizada em 17/12/2025 às 14h31
Por: Arthur Feitosa
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Foto: Reprodução
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Traição, no Brasil contemporâneo, deixou de ser desvio moral para tornar-se método. No noticiário cotidiano, a ruptura de alianças, o abandono de compromissos e a conveniência travestida de pragmatismo político já não causam espanto. A traição, em nossa cultura política, passou a integrar o “pacote básico” do poder.

No último 2 de dezembro, o Brasil completou 200 anos do nascimento de Dom Pedro II, o maior estadista de sua história. Um chefe de Estado respeitado nas principais capitais do mundo, fluente em mais de uma dezena de idiomas, membro de academias científicas europeias, patrono das artes, da ciência e da educação. Um homem maior que o cargo que ocupou.

Pedro II não foi deposto por tirania, corrupção ou incompetência. Foi derrubado por traição. E talvez a mais dolorosa delas tenha vindo de alguém a quem dedicava estima pessoal e confiança institucional. Marechal Deodoro da Fonseca, o primeiro presidente da República proclamada em 15 de novembro de 1889. Um golpe sem povo, sem plebiscito, sem legitimidade histórica, apenas o produto da impaciência das elites civis e militares com um imperador que se recusava a governar por arbitrariedade.

Pouco se diz, mas Dom Pedro II já havia feito o que muitos “democratas” modernos jamais ousaram. Limitou voluntariamente o próprio poder. No Segundo Reinado, o Brasil funcionava sob um regime parlamentarista de fato, no qual o imperador exercia o Poder Moderador, atuando como árbitro institucional, não como déspota. Era o anteparo dos conflitos políticos, o fiador da estabilidade e da unidade nacional.

Os números desmentem a caricatura construída pela historiografia militante. Durante o Segundo Reinado, o Brasil implantou mais de 15 mil km de linhas telegráficas, construiu ferrovias estratégicas, integrando regiões produtivas, fortaleceu o sistema bancário e o crédito, manteve estabilidade monetária por décadas, aboliu a escravidão sem guerra civil, e preservou a integridade territorial de um país continental.

Pedro II recusou indenizações, títulos ou privilégios após o golpe. No exílio, aceitou apenas um pedido singelo. Um pequeno saco de areia do solo brasileiro, que desejava como travesseiro simbólico quando morresse. Morreu longe da pátria, mas maior que seus algozes.

A elite política brasileira, desde então, escolheu outro caminho. Ao invés da estabilidade, optou pela ruptura permanente. Ao invés de um projeto nacional, preferiu o improviso. Desde 1889, o Brasil coleciona golpes, contragolpes, quarteladas, ditaduras, hiperinflação, rupturas institucionais e crises cíclicas. Em mais de um século de República, jamais foi capaz de formular um projeto de nação duradouro.

A noção de cidadania, pilar das democracias maduras, ainda soa estranha a grande parte dos brasileiros, sobretudo nas regiões historicamente exploradas, como o Nordeste. Diferentemente de países como Estados Unidos e Canadá, que construíram identidades nacionais sólidas desde suas origens, o Brasil jamais consolidou um pacto político estável entre Estado e sociedade.

Nesse vazio, prosperou a ignorância política cuidadosamente cultivada por elites que vivem da manutenção de currais eleitorais, da dependência econômica e do atraso estrutural. Um sistema que não forma cidadãos, mas dependentes, não produz consciência crítica, mas submissão.

O futuro do Brasil começou a se perder no momento em que se traiu Dom Pedro II. Ao afastar o maior estadista de sua história, o país optou por um modelo político instável, personalista e oportunista, cujos efeitos ainda sentimos.

Dom Pedro II não foi apenas um imperador. Foi um projeto de Brasil que nunca mais tivemos coragem de retomar. Nosso eterno imperador não caiu. Foi abandonado. E, com ele, abandonamos a chance de sermos uma nação à altura de nós mesmos.

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Sobre Arthur Feitosa - Executivo e articulista político do portal Gazeta Hora1
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