
Amor, poder e cargo público: quando o coração do prefeito vira diário oficial
Na política brasileira, quase nada surpreende. O que ainda choca não é a prática, mas o descaramento. O nepotismo, velho conhecido do eleitor, já não se contenta em circular apenas entre esposas, filhos, irmãos e cunhados. Evoluiu. Sofisticou-se. Ganhou contornos mais… passionais. Se a lei fecha a porta para o parente, abre-se a janela para a amante. E segue o baile.
Foi exatamente esse o roteiro encenado em São José dos Campos, interior de São Paulo. O prefeito Anderson Farias, sem rubor no rosto e com a caneta firme, nomeou para um conselho de empresa municipal uma enfermeira que se declara sua amante. Não é boato de esquina nem fofoca de bastidor, está documentado, publicado e amplamente noticiado pela imprensa nacional. O romance ganhou CPF, portaria e remuneração mensal.
Legalmente? Pode até ser. Moralmente? Aí o buraco é bem mais embaixo. A nomeação, assinada pelo próprio prefeito, garantiu à suposta amante um cargo de conselheira da Urbanizadora Municipal (Urbam), empresa pública responsável pela limpeza urbana da cidade. Salário modesto, é verdade, mas o problema nunca foi o valor, e sim o símbolo. O cargo público virou lembrancinha de relacionamento.
O enredo fica ainda mais indigesto quando se observa o contexto. A relação extraconjugal veio à tona após a amante registrar boletim de ocorrência contra a então primeira-dama, acusando-a de perseguição e xingamentos. A crise conjugal transbordou para o noticiário policial, político e administrativo. Resultado, separação oficial anunciada pela prefeitura e um escândalo que expôs a promiscuidade entre vida privada e gestão pública.
No Brasil, prefeitos adoram repetir que “não há ilegalidade”. E muitas vezes têm razão, no papel frio da lei. Mas governar não é apenas cumprir formalidades jurídicas. É respeitar princípios éticos, morais e republicanos. Nomear alguém com quem se mantém relação íntima para cargo em empresa pública não fere apenas o bom senso, fere a confiança da sociedade na lisura da administração.
O mais grave é que o caso não é exceção, é sintoma. A cultura do “posso, logo faço” continua viva e saudável. O poder público segue sendo tratado como extensão da casa do gestor, onde cargos viram favores, conselhos viram prêmio de consolação e o contribuinte paga a conta sem sequer ser convidado para a conversa.
No fim, a pergunta que fica não é se pode. É se deve. E, sobretudo, até quando a política brasileira vai insistir em confundir gabinete com quarto, nomeação com declaração de amor e administração pública com novela de horário nobre.
BRASIL Brasil - A engrenagem da escassez: como o poder se alimenta da miséria
NEM TODOS ESTÃO? Cuidando do que importa?
SELEÇÃO Seleção do IBGE segue com inscrições abertas até 9 de julho no Piauí Mín. 20° Máx. 38°