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A Operação Transparência: O que a PF realmente busca no subterrâneo das emendas parlamentares

A ação contra a assessora de Arthur Lira revela muito mais que um caso isolado: expõe um sistema que operou por anos na sombra do poder e que agora começa a ser iluminado, ainda que tardiamente

12/12/2025 às 09h59 Atualizada em 12/12/2025 às 13h33
Por: Douglas Ferreira
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Mariângela Fialek, a assessora mais influente da máquina de emendas durante a gestão de Arthur Lira - Foto: Reprodução
Mariângela Fialek, a assessora mais influente da máquina de emendas durante a gestão de Arthur Lira - Foto: Reprodução

A Operação Transparência, deflagrada pela Polícia Federal, não é mais uma daquelas ações em Brasília destinadas apenas a produzir manchetes matinais e silêncio vespertino. Ela toca no coração de um sistema que, por anos, funcionou com uma combinação rara de poder político, opacidade orçamentária e personagens que operavam nos bastidores com eficiência quase cirúrgica. E o fato de atingir Mariângela Fialek, a assessora mais influente da máquina de emendas durante a gestão de Arthur Lira na presidência da Câmara, não é um acidente: é um recado.

Fialek, conhecida no Congresso como “Tuca”, uma operadora respeitada (ou temida) por parlamentares, sempre esteve onde o dinheiro passava. Ou melhor: onde o dinheiro era destravado. Durante o auge do chamado orçamento secreto, era ela quem recebia pedidos, organizava planilhas, encaminhava liberações e destravava recursos. Em um país com instituições frágeis, essa função já seria, por si só, explosiva. Em Brasília, tornou-se estratégica.

A PF, agora, tenta compreender se a destinação de emendas, especialmente aquelas ligadas às RP9, derrubadas pelo STF em 2022, obedeceu apenas a critérios políticos ou se transbordou para crimes como peculato, corrupção, falsidade ideológica e uso de documentos falsos. Isso é objetivo, concreto e está descrito na decisão que autorizou as buscas. Não se trata, portanto, de fofoca institucional. Trata-se de investigação criminal.

A vida funcional de Tuca reforça o peso do que está em jogo. Além da articulação das emendas enquanto Lira presidia a Câmara, ela acumulou assentos estratégicos em conselhos fiscais, primeiro na Codevasf, a estatal que virou sinônimo de “cofre auxiliar” do Centrão, depois na Caixa Econômica Federal, presidida por indicação do próprio Lira. Nada disso a torna criminosa; mas tudo isso a torna peça-chave em uma engrenagem que movimentou bilhões. E onde há bilhões, há perguntas.

O ponto mais sensível, porém, está em outra dimensão: a investigação não mira Lira diretamente, mas também não é preciso separar o operador do mandante, o assessor do articulador, o executor da autoridade. A PF não afirma que Lira é investigado. Mas o fio puxa para perto dele ,e essa proximidade constrange o ambiente político. Há um rastro de poder, de influência e de dinheiro público que precisa ser explicado.

O STF, ao derrubar o orçamento secreto, deixou claro que a ausência de transparência não podia continuar a justificar o irrastreável. Mas aquilo que se dissolveu juridicamente ainda permanece politicamente: os operadores, as ferramentas, os canais informais, os atalhos. A operação desta sexta-feira é, portanto, mais que um ato policial: é uma tentativa de entender se mecanismos que deveriam ter morrido em 2022 seguiram, reembalados, sob novas siglas e velhos hábitos.

Se há crime? É isso que se tenta descobrir. Mas se há risco sistêmico, zona cinzenta, opacidade crônica, isso já não está em debate, está comprovado pelo simples fato de que uma assessora técnica, sem mandato, virou uma das figuras mais cobiçadas por parlamentares que precisavam liberar suas emendas. A normalidade disso, em si, é um escândalo.

O caso de Tuca talvez seja o primeiro movimento de uma ofensiva maior contra o modelo de distribuição de verbas no Congresso. Pode ser também apenas um gesto simbólico, limitado, que não tocará nas estruturas que realmente importam. De toda forma, a operação abre uma janela incômoda: se os operadores do orçamento eram tão importantes quanto os chefes, quem realmente governava a política de liberação de recursos no Brasil?

Até onde o fio puxado pela PF pode chegar, isso ninguém sabe. Mas uma certeza já existe: a era da escuridão absoluta sobre as emendas está chegando ao fim. A questão é se Brasília está preparada para viver sob luz forte.

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