
O ser humano sempre foi atraído pelo brilho do luxo e pelo calor da luxúria, como mariposas que voam em direção ao fogo achando que encontrarão luz, quando na verdade encontram destruição. Há algo em nossa natureza que deseja mais do que o necessário, algo que empurra cada um de nós para muito além da mera sobrevivência. Não buscamos apenas viver; buscamos nos sentir especiais, superiores, indiscutivelmente importantes. É nessa fronteira perigosa entre desejo legítimo e ambição desordenada que nasce a filáucia, a mãe de todas as doenças espirituais, a raiz do ego inflado, o veneno silencioso que envenena reis, governantes, ministros e até pessoas comuns.
Desde tempos imemoriais, os seres humanos percebem essa dualidade interior. Somos capazes de gestos heroicos, mas também de quedas vergonhosas. Queremos amar, mas tropeçamos no orgulho. Buscamos a verdade, mas nos embelezamos com ilusões. A tradição cristã explica isso com uma clareza desconcertante. O homem é bom, mas está ferido. Carrega uma grandeza que não sabe sustentar e uma fragilidade que não sabe admitir. E é exatamente dessa ferida, dessa confusão interna entre luz e sombra, que brota a filáucia. Não o amor próprio saudável, mas a sua versão corrompida, tóxica, cega.
É por isso que o poderoso cai tão facilmente no abismo da vaidade. O poder não corrompe do nada; ele apenas acelera a doença que já existe no coração. É como jogar fermento numa massa instável. O político, o ministro, o magistrado, o executivo não vive em ambiente normal. Vive numa bolha, onde raramente é contrariado, onde bajuladores abastecem seu ego, onde tapinhas nas costas substituem alertas e onde o medo dos subordinados se confunde com respeito. O ambiente público, quando não vigiado, vira uma estufa para que a filáucia cresça como trepadeira, subindo pelas paredes do caráter até sufocar completamente as virtudes originais.
Não é de espantar que figuras com salários astronômicos reclamem de remuneração. Que ministros do Supremo, pagos como príncipes, cercados de privilégios, reajustes, auxílio-moradia, carros oficiais, seguranças e viagens requintadas, ainda se digam injustiçados. Não surpreende que escolham vinhos importados, rejeitem produtos brasileiros, exijam lagosta e camarão como se fossem parte do mobiliário constitucional. É quase poético de tão grotesco. A liturgia do luxo se tornou, para muitos deles, uma espécie de sacramento laico, onde cada garfada reafirma não o prazer, mas a superioridade.
No Executivo a cena não é diferente. O comentário de Lula, de que “em palácios se come mal”, não foi apenas uma frase solta. Foi a confissão involuntária de quem acredita que o Estado existe para servi-lo, abastecê-lo, agradá-lo. A ideia de que o governante está acima das limitações humanas e acima da própria realidade dos mortais comuns é um sintoma claro da filáucia em estado avançado. O governante se vê não como servidor, mas como servido. Não como liderança, mas como entidade. Não como administrador, mas como beneficiário.
É nesse mesmo palco de distorções que surge a figura de Janja da Silva, cuja presença no cotidiano presidencial tornou-se símbolo máximo da vaidade institucionalizada. A primeira-dama, convertida em personagem central da estética do poder, vive cercada por privilégios, viagens, pompas e comportamentos que extrapolam todas as fronteiras da discrição republicana. Sua postura expansiva, marcada por perdulária insistência em desfrutar das benesses do cargo e por uma agressividade surpreendente ao escolher e atacar seus alvos, revela o retrato mais acabado da filáucia moderna. Em vez de temperança, busca holofotes. Em vez de moderação, abraça o exibicionismo. E tudo isso sustentado pelo erário, tratado como extensão natural dos seus caprichos.
E quando cobrada, alertada ou criticada, rebate com frases do tipo: "Não sinto medo, nem vergonha, mas sim coragem." É o pensamento típico de quem se encontra profundamente acometido pela filáucia.
A filáucia, porém, não nasce má. Seu significado original, em grego, era nobre. Filosoficamente, ela representava o amor próprio saudável, a consciência de que somos amados por Deus, de que temos um valor intrínseco e uma missão. Jesus reforçou isso ao dizer que devemos amar o próximo como a nós mesmos. Mas esse amor próprio natural foi pervertido pelo desejo de autonomia absoluta. Quando o homem deixou de querer ser criatura e quis ser criador, quando deixou de querer amar a Deus e passou a querer ocupar o lugar de Deus, a filáucia virtuosa se contorceu e virou egoísmo, orgulho, vaidade e, finalmente, corrupção moral.
A doença da filáucia é sempre uma inversão da saúde. O ego saudável reconhece sua origem, sua fragilidade, sua dependência. O ego doente se imagina autossuficiente, infalível, iluminado por si mesmo. Ele corta a relação com a luz verdadeira e passa a brilhar falsamente, como carvão em brasa: bonito por alguns instantes, consumido logo depois. Adão, seduzido pela promessa da serpente, deixou de amar a Deus para amar a si mesmo acima de tudo, e esse erro simbólico é reeditado diariamente nos gabinetes, nas cortes, nos parlamentos e até dentro de nossas casas.
Há cura, mas ela é rara. Exige humildade radical, algo que não floresce em ambientes de poder absoluto. Requer silêncio interior, exame de consciência, serviço real aos outros, renúncia à bajulação, capacidade de ouvir críticas e disposição para quebrar o espelho narcísico no qual a pessoa se contempla. Mais ainda, exige a reconexão com a verdadeira fonte de amor, aquela que não infla, mas ilumina. Quase nada no ambiente institucional brasileiro favorece isso. Pelo contrário, tudo nele estimula a manutenção da vaidade.
Por isso, quando reconhecemos alguém tomado pela filáucia, não adianta esperar mudança espontânea. É preciso vigilância rigorosa, cobrança constante, fiscalização implacável. Uma sociedade que fecha os olhos para a doença dos seus líderes não é apenas vítima. É cúmplice.
Eis a verdade desconfortável: a filáucia dos poderosos só prospera porque a sociedade permite, tolera e até admira. Enquanto continuarmos confundindo autoridade com superioridade, prestígio com virtude e cargo com santidade, continuaremos vendo governantes que trocam o bem comum por vinhos importados e ministros que se servem com lagosta enquanto o povo come esperança temperada com fé.
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