
Não tenho nada contra o Clube de Regatas do Flamengo. É um clube vitorioso e, em 2025, conquistou o maior campeonato do país e do continente sul-americano. Venceu com autoridade, organização e vontade dentro de campo. O contraste incomoda quando olhamos para fora das quatro linhas: o povo brasileiro parece anestesiado diante das mazelas que enfrenta no dia a dia há décadas.
Somos uma nação que vai às ruas, compra camisas de times, lota bares e restaurantes, fica vidrada na televisão assistindo ao “time do coração” jogar, vencendo ou perdendo. Todos os anos, a mesma coisa. Um eterno perde e ganha simbólico, enquanto a torcida se dedica a algo que, em absolutamente nada, vai mudar sua vida. Esporte é bom, faz parte da cultura, mas precisa estar no seu devido lugar. Temos segurança nas ruas ou dentro de casa? Saúde pública de qualidade? Educação em nível de potências mundiais? Carros seguros e com preço justo? Um salário mínimo capaz de garantir uma vida digna? A resposta, infelizmente, é não.
Voltando ao Flamengo: sabe por que ele tem a maior torcida do país? É simples. Durante décadas, foi o clube mais exibido pela principal fonte de informação da população, a televisão. A Rede Globo concentrou suas transmissões no time carioca, assim como a Band fez com o Corinthians. Não é culpa do Flamengo. Poderia ter sido Fluminense, Botafogo ou qualquer outro. O ponto não é o clube, mas o esporte usado como anestesia social por um sistema que prefere uma população entretida a uma população crítica. Somos um país riquíssimo, mas incapaz de universalizar saneamento básico, o que causa doenças evitáveis. Somos um dos países mais violentos do mundo, com milhares de assassinatos por ano. Trabalhadores morrem nas ruas todos os dias. Essa é a realidade. Nua e crua.
Enquanto torcemos por Flamengo, Corinthians, Palmeiras ou São Paulo, os problemas continuam e tendem a piorar. É verdade que houve algum despertar: hoje, pessoas de esquerda e de direita já conhecem os ministros do STF e os principais atores da República. É pouco, mas é um começo.
A pergunta é: quando vamos cobrar de verdade? Quando vamos deixar de parecer uma população preocupada apenas com carnaval, samba, forró e futebol? O Flamengo foi campeão brasileiro e da Libertadores. Parabéns. E o Brasil, não a seleção, mas a nação, foi campeão em quê? Assaltos, homicídios, corrupção, estradas mortais?
E daí?
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