
A brutalidade do assassinato de Luana Meirelles, 28 anos, e Ana Júlia Ribeiro, 22 anos, ambas mortas a golpes de espada por Renan dos Santos Moraes, não é apenas mais um episódio trágico na crônica policial brasileira. É um sintoma agudo de uma doença social que mistura machismo doentio, ciúmes possessivo e a absoluta falência das redes de proteção às mulheres. O crime ocorrido em Edéia, Goiás, em setembro de 2024, voltou ao centro do debate com a condenação de Renan a mais de 30 anos de prisão em regime fechado, mas a sentença, embora justa, não encerra a discussão, abre outra.
Renan matou primeiro a namorada, Luana, dentro de casa. Horas depois, atravessou a cidade pedalando uma bicicleta, com a mesma espada artesanal em mãos e atacou Ana Júlia em seu local de trabalho. O crime foi registrado por câmeras de segurança. A frieza, a sequência dos ataques e a evidente premeditação desmontam qualquer tentativa de atribuir o caso a um “surto” ou a um “crime passional”. Não foi paixão. Foi domínio, controle, vingança. Foi feminicídio em sua forma mais explícita e cruel.
Segundo a investigação, tudo começou após uma discussão por ciúmes entre Renan e Luana. Mas, diferentemente do que muitos ainda tentam romantizar, ciúmes não é sentimento, é sintoma. Sintoma de quem não suporta a autonomia do outro, de quem confunde afeto com posse e relacionamento com território privado. A motivação do crime, portanto, expõe mais uma vez a lógica torta do masculinismo violento que ainda estrutura relações no Brasil.
A morte de Ana Júlia, atacada apenas porque havia sido ex-namorada do agressor, eleva a barbárie a outro nível: um feminicídio que busca eliminar o passado da vítima atual, como se a história anterior dela fosse um insulto ao ego do agressor. Renan não matou duas mulheres, tentou apagar duas biografias que o contrariavam. É o ápice da lógica de propriedade, na qual o agressor se vê autorizado a decidir quem vive e quem morre.
A condenação severa imposta pela Justiça representa, sim, um avanço importante num sistema historicamente leniente com crimes contra mulheres. No entanto, é impossível ignorar que a sentença chega tarde demais para Luana e Ana Júlia. A punição repara o Estado; não repara a vida. E, enquanto isso, a engrenagem que produz agressores segue funcionando, intacta, alimentada pelo silêncio social, pela normalização da violência e pela incapacidade institucional de prevenir tragédias anunciadas.
Não é irrelevante que o crime tenha sido cometido com uma espada artesanal, arma fora dos padrões e da legislação, mas facilmente acessível. O instrumento incomum expõe um problema comum: o acesso quase irrestrito a armas brancas e improvisadas, muitas vezes ignorado pelo poder público, mas responsável por milhares de mortes todos os anos. A brutalidade da arma contribuiu para o choque coletivo, e deveria contribuir também para um debate mais profundo sobre monitoramento e controle.
Ao mesmo tempo, o caso escancara o fracasso das políticas de proteção às mulheres. Quantas Luanas e Anas Júlias estão hoje vivendo sob ameaças, em relacionamentos deteriorados, sem apoio psicológico, sem assistência do Estado, com medo de denunciar porque sabem que a denúncia pode virar sentença? A violência doméstica não explode de repente, ela dá sinais. Sinais que, muitas vezes, ninguém vê. Ou pior: vê e ignora.
A resposta judicial, embora importante, não pode ser o único ponto de ação do Estado. É preciso que a sociedade compreenda que a violência contra a mulher não nasce no golpe, mas no controle, na manipulação emocional, na humilhação, no ciúme travestido de cuidado. Quando esses comportamentos são tolerados, naturalizados ou até incentivados, o terreno para tragédias como essa está fertilizado.
A condenação de Renan reacende o debate sobre o papel da sociedade, do Estado e das instituições no combate ao feminicídio. É preciso mais que leis; é preciso vigilância social, educação afetiva, atendimento psicológico acessível, delegacias especializadas e sistemas de proteção que funcionem antes do sangue derramado. A violência não é inevitável, ela é construída todos os dias, e pode (e deve) ser interrompida antes de um homicida sacar uma espada.
O caso de Edéia deixa lições duras: a Justiça puniu, mas não preveniu. E enquanto não aprendermos que a prevenção vale mais que a sentença, continuaremos assistindo ao mesmo roteiro se repetir: mulheres pedindo ajuda, sociedade desviando o olhar, Estado chegando tarde demais, manchetes anunciando tragédias que poderiam ter sido evitadas. A condenação fecha um processo, mas abre outro, o de cobrar mudanças reais para que Luanas e Anas Júlias não virem estatística.
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