
A cada nova denúncia, fica mais claro que a Rede de Postos HD não vendia apenas combustível, vendia também dor de cabeça engarrafada, rombo no motor e, de quebra, um convite para o consumidor virar mecânico involuntário. As queixas são antigas, recorrentes e repetitivas como bomba que marca 50 litros quando seu carro só comporta 45. A fama da tal bomba baixa, aquela delícia em que você paga por 10 e recebe 9, não caiu do céu. Caiu do tanque, literalmente.
Mas, como diria qualquer investigado que já passou pelo noticiário, calma que piora. Porque o problema dos postos HD não era apenas quantidade. Era também qualidade, ou melhor, a falta completa dela. E não estamos falando de cheiro estranho no combustível ou cor duvidosa. Estamos falando de adulteração descarada, com direito a turbidez, água e uma mistura que faria inveja a qualquer alquimista medieval.
Segundo o Ministério Público, a coisa funcionava assim, simplificando bem, chegava combustível bom, saía combustível ruim. Onde isso acontecia? No próprio posto HD 11, em Lagoa do Piauí, num ambiente digno de filme policial, com tanques expostos, obra em andamento e padrões técnicos que fariam a ANP desmaiar. Quem fazia isso? O dono Haran Santhiago e o responsável técnico João Revoredo. E o que eles colocavam na gasolina? A fiscalização encontrou água em quantidade suficiente para batizar até piscina pública, impurezas e violações descaradas do mínimo aceitável. Um combustível tão turvo que dava para confundir com caldo de cana velho.
E o resultado no carro do consumidor? Pane, falha, batida de motor, prejuízo. Porque motor não foi feito para beber água mineral. Já para a Fazenda Estadual, o rombo é ainda maior. Adulteração gera perda de arrecadação, distorção na concorrência e favorece esquema paralelo de compra e venda. No fim, todo mundo paga a conta, menos quem embolsou.
Mas segura, porque ainda não acabou. Além do crime contra a ordem econômica, os dois respondem a suspeitas bem mais cabeludas. O MP aponta que o caso não é isolado, mas parte de uma estrutura bem montada que inclui lavagem de dinheiro, organização criminosa e, pasme, ligação com nada menos que o braço financeiro do PCC no Piauí.
Essa parte vem da Operação Carbono Oculto 86, que colocou luz sobre um esquema tão complexo que faz até manual de contabilidade parecer literatura infantil. A Rede HD teria sido usada em sucessões empresariais fraudulentas, empresas de fachada, fundos suspeitos e fintechs do além, tudo para lavar dinheiro de crimes diversos.
Para completar o enredo, Haran e Danillo Coelho teriam vendido a rede para uma empresa criada praticamente ontem, a Pima Energia, que mal tinha CNPJ e já estava comprando uma cadeia de postos inteira. As investigações mostram que, apesar da suposta venda, quem continuava mandando era o mesmo grupo, operando em uníssono com empresários de São Paulo associados ao PCC.
O delegado Anchieta Nery explicou que a HD adulterava combustível, lavava dinheiro e fazia sucessão fraudulenta, tudo ao mesmo tempo. É a chamada criminalidade multifuncional, o combo premium do crime, aquele que você nunca pediu mas acaba pagando.
No fim, a pergunta é inevitável. Quanto tempo isso durou? Quantos carros estragaram? Quanto dinheiro público evaporou junto com o combustível adulterado? O Ministério Público pede condenação, multa de R$ 500 mil e responsabilização exemplar. Mas o estrago já está feito. E o consumidor, como sempre, segue abastecendo esperança, torcendo para que pelo menos o próximo posto não venha com água tônica no tanque.
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