
A cada operação policial, vai ficando impossível negar o óbvio, as facções criminosas não apenas dialogam com o poder, elas já fincaram raízes nele. Não se trata mais de cooptação pontual de vereadores de interior ou de velhos esquemas paroquiais. O que se vê hoje é um sistema infiltrado, operando dentro das instituições, em todas as esferas, com engrenagens que rodam em harmonia com o crime organizado.
O caso do Rio de Janeiro é didático, e perturbador. Há agentes políticos que trabalham, direta ou indiretamente, para o Comando Vermelho, alguns por conveniência eleitoral, outros por medo, outros por lucro fácil. A naturalização desse elo é tão profunda que já existe quem ocupe assento na Alerj atuando como operador político da facção, influenciando votações, nomeações e até deslocamento de tropas policiais.
A prisão preventiva do presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, Rodrigo Bacellar, escancara a falência moral de um pedaço do Estado que deveria ser o primeiro a reagir ao avanço do crime, mas que prefere dançar conforme a música da facção. Bacellar foi encarcerado pela Polícia Federal sob ordem do ministro Alexandre de Moraes, acusado de vazar informações sigilosas de uma operação contra o próprio CV. Fazia isso, segundo a PF, em benefício direto de investigados, inclusive do deputado estadual Thiego Raimundo dos Santos Silva, TH Joias, apontado como articulador político da facção dentro da Assembleia.
A Operação Unha e Carne, o nome é quase uma ironia involuntária, revelou “provas robustas” de que Bacellar atuava para dificultar a Operação Zargun, que mirava o alto comando do Comando Vermelho, seu fluxo financeiro e seus vínculos com agentes públicos. Não era um deslize isolado. Era um papel ativo de sabotagem da repressão ao crime organizado.
Quando o presidente de um Poder, com a caneta, a influência e a estrutura que seu cargo confere, decide não combater, mas facilitar a vida de um grupo criminoso, o problema ultrapassa o desvio individual, vira crise institucional.
A decisão de Moraes, que afastou Bacellar da Alerj, foi enfática. Segundo o ministro, havia risco concreto de continuidade delitiva e interferência indevida “inclusive com influência no Poder Executivo estadual”. Ou seja, a infiltração não é superficial, já toca múltiplas camadas do aparato estatal.
A Operação Zargun, detonada em setembro, mostrou a profundidade do buraco, tráfico internacional de armas, compra de fuzis, drones antidetecção, lavagem milionária, corrupção policial e política, influência direta em decisões de segurança pública. Para completar, TH Joias havia indicado a esposa de um traficante para um cargo parlamentar. Estado e facção, ali, eram praticamente extensão um do outro.
A lista de investigados apenas confirma o enraizamento, o tesoureiro do CV movimentando R$ 120 milhões, uma liderança conhecida da facção, um ex-subsecretário interferindo em ações policiais e até um delegado federal fornecendo proteção ao grupo.
Seja “traficante de fuzil” no Alemão ou “traficante de terno” na Assembleia, como disse o secretário de Polícia Civil, Felipe Curi, o dano à democracia é o mesmo, ou pior. Porque a arma na favela intimida, o mandato no Parlamento legitima.
No fim, a pergunta inevitável é, como chegamos a esse ponto? Campanhas financiadas? Troca de favores? Medo? Cumplicidade? Seja qual for a porta de entrada, a verdade é que as facções já não se limitam a sobreviver dentro do Estado, estão disputando e ocupando espaços de poder. E quando o crime organizado passa a operar de dentro da sala onde se faz a lei, a fronteira entre Estado e facção se dissolve.
No caso Bacellar, ele pode até tentar explicar. Mas, como tantos antes dele, vai morrer explicando sem convencer ninguém. Porque o que pesa não é o discurso, é o abismo entre o cargo que ocupava e os interesses que decidiu servir.
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