
O cancelamento da sabatina de Jorge Messias, anunciado por Davi Alcolumbre nesta terça-feira (2/12), expôs muito mais do que um erro burocrático ou uma falha de comunicação. Mostrou que o Senado, ou melhor, o presidente do Senado, ainda se recusa a ser conduzido como apêndice automático do governo federal. Ao alegar “omissão grave e sem precedentes” do Executivo por não enviar a mensagem formal com a indicação de Messias, Alcolumbre recupera o protagonismo institucional da Casa Alta, recordando que a prerrogativa de definir datas, ritos e cronogramas é exclusivamente do Legislativo.
O fato de que a indicação de Messias já havia sido publicada no Diário Oficial, mas não foi encaminhada formalmente ao Senado, permitiu a Alcolumbre usar o rito como argumento. A sabatina marcada para 10 de dezembro desapareceu do calendário porque, sem a mensagem, o processo seria regimentalmente inválido, e isso, na visão dele, abriria margem para contestação futura.
Esse gesto tem peso simbólico e prático, ele faz o Planalto recomeçar o trâmite desde o início, devolve à mesa o poder de negociação e, sobretudo, gera pressão política sobre o Executivo, que agora precisa justificar a falha e negociar o ritmo do processo, uma negociação que já se desenha nos bastidores.
Não há dúvida de que o movimento de Alcolumbre é um recado de força institucional, o Senado não vai aceitar atropelos, e indicações ao STF não podem ser tratadas como protocolo automático. Mas é ingenuidade crer que se trata apenas de defesa de prerrogativas. Estamos vendo também um cálculo político preciso, guiado por interesses e barganhas, como em qualquer negociação de poder.
O adiamento serve a vários propósitos, dá tempo para convencer senadores indecisos, permite que o Planalto reforce sua base ou altere cálculos de costura política, e devolve a Alcolumbre o controle do ritmo. E, ao mesmo tempo, envia a mensagem de que o governo não está acima do Legislativo, ou pelo menos, que não pode se comportar como tal sem consequências. Muitos no Senado veem nisso a chance de recuperar relevância institucional e visibilidade.
Mas há um risco evidente, se o governo reagir com retaliações, reestruturações, trocas de cargos, pressões econômicas, o clima político pode estremecer. O próprio adiamento já revela que existe um receio real de derrota na votação final, ou pelo menos um cuidado em não submeter Messias a uma votação antes de garantir apoio seguro. Isso transforma a sabatina em tabuleiro de jogo, em que votos e barganhas têm papel maior do que mérito e avaliação constitucional.
Alcolumbre acusa o governo de “interferência no cronograma estabelecido pela Casa”, algo que, segundo ele, fere o pacto institucional entre os poderes. Essa crítica, expressa com dureza, revela que o Planalto estaria tentando usar rapidez e pressão para reduzir o tempo de articulação política de Messias, a velha estratégia de “bate e corre”, marcar a sabatina cedo demais, limitar o tempo para debates e aprovação, tentando garantir uma vitória em acelerado, antes que resistências se cristalizem.
Se confirmada, essa tentativa representaria não apenas pressa, mas desrespeito ao rito democrático de aprovação de um ministro do STF, e poderia configurar uma tentativa de transformar a indicação numa formalidade, não num processo de avaliação.
O cancelamento deixa claro que, hoje, o controle da indicação depende menos da vontade de Lula e mais da habilidade de Alcolumbre em negociar votos, obter garantias e estruturar barganhas. A eventual sabatina de Messias, se ocorrer, não será resultado automático da indicação presidencial, será fruto de um acordo renovado, com novas regras de jogo.
Para o Planalto, isso representa um recado, não é suficiente indicar e publicar no Diário Oficial. É preciso jogar conforme as regras do Senado e aceitar que o processo não está blindado. Para Alcolumbre, é a afirmação de que o Senado recupera protagonismo, mesmo em tempos de maioria governista na Câmara.
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