
O deputado estadual Renato Freitas (PT/PR) finalmente deixou de lado o teatro e decidiu admitir aquilo que todos já suspeitavam: é, nas palavras dele, “maconheiro”. Não “usuário de cannabis”, não “paciente medicinal”, não “cannabizeiro”, maconheiro, com todas as letras. Para quem sempre surfou no discurso identitário e no vitimismo político, a confissão não causa espanto. A surpresa está na forma como ele tenta transformar o hábito pessoal em pauta de Estado e, pior, em narrativa racial.
O petista afirma que a criminalização da maconha no Brasil é “racista”. A pergunta que não quer calar é simples: racista para quem? O racismo está na lei ou está no recorte conveniente que ele aplica ao tema? Porque, ao que consta, usuários e traficantes de TODAS as cores lotam celas, delegacias e hospitais. A droga não escolhe raça. A marginalização, sim, e isso tem mais a ver com desigualdade social, ausência do Estado e escolhas pessoais do que com o THC em si.
O parlamentar, em seu tom habitual de provocação, narra que já cultivou maconha em casa, com sementes improvisadas, num experimento que só não avançou por interferência materna. A naturalidade com que descreve o “hobby” doméstico revela mais do que ousadia, revela uma mistura perigosa de desprezo pela lei e glamourização da transgressão.
Ao defender a abertura de uma “associação de plantio medicinal”, Freitas escapa do debate sério e mergulha no personagem. Fala em “fumar na cara da classe média branca de Curitiba”, como se o consumo de maconha fosse ferramenta de luta política. Talvez seja, na cabeça dele. Mas no mundo real, maconha não derruba estruturas de poder, só enfraquece quem acredita que ela substitui argumentos.
E as polêmicas do deputado não param no ativismo verde. Renato coleciona episódios que lhe rendem manchetes constantes, detenção por desacato, desentendimento com guardas municipais, pichação de supermercado, conflitos com a polícia, cassação de mandato e agora uma briga recente no centro de Curitiba. Nada disso, porém, ele relaciona ao seu consumo assumido. A pergunta permanece: algum desses episódios ocorreu sob efeito da droga? Ele não diz. O silêncio é conveniente.
Quando tenta rotular a criminalização como “racista”, Renato ignora a realidade concreta: o debate sobre drogas é complexo, envolve saúde pública, crime organizado, órgãos de controle, políticas sociais e prevenção. Reduzir tudo isso a um slogan identitário é intelectualmente desonesto, e politicamente perigoso.
O deputado tenta se apresentar como revolucionário, mas acaba apenas confirmando o estereótipo do militante que transforma experiência pessoal em universalidade política. Se fuma, acha que o país deve liberar. Se planta, acha que plantar é direito. Se milita, acha que discordância é perseguição. É uma equação simples, rasa, e coerente com sua trajetória marcada mais por confrontos do que por propostas concretas.
No fim, o petista Renato Freitas se expõe mais do que imagina. Não revela apenas o gosto pela maconha. Revela sobretudo o vício em narrativa, essa sim, permanente, ideológica e intoxicante.
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