
Há temas que parte da imprensa evita tocar, seja por conveniência, medo de polarização ou receio de gerar ruído: a possibilidade, remota, mas real, de Jair Bolsonaro morrer na prisão. E não se trata de sensacionalismo, mas de prudência. O Brasil conhece os fantasmas que ele mesmo produz: negligência institucional, ódio político e vingança travestida de justiça. Em certos momentos, essas forças se misturam de forma tão explícita que ignorar o risco seria irresponsável.
Nos últimos dias, a apreensão em torno da saúde do ex-presidente cresceu. Não por paranoia, mas por lógica. Casos de intoxicação e envenenamento em unidades prisionais brasileiras existem, são documentados e recentes. No mês passado, no Ceará, uma cozinheira de presídio foi assassinada por uma facção criminosa por se recusar a envenenar a comida de policiais. Esse episódio brutal mostra que, no Brasil, a comida pode ser arma, e que o risco, infelizmente, não é ficção. Quando se trata de Bolsonaro, alguém com sequelas intestinais graves após a facada de 2018, o alerta se torna ainda mais plausível.
Some-se a isso o cli ministros da mais alta Corte afirmam que o ex-presidente é “perigoso”ma político atual, onde, mantendo sua prisão preventiva sob argumentos que soam mais passionais do que técnicos. O ambiente sugere menos justiça e mais vendeta, o que acende o alerta para qualquer possibilidade, inclusive, as que ninguém ousa verbalizar.
Diante desse cenário, não surpreende que Flávio Bolsonaro tenha dito que o pai está profundamente preocupado com a origem da comida servida na Superintendência da Polícia Federal. E isso não deveria ser tratado como exagero. Porque, convenhamos, entre a cozinha terceirizada e a cela, há um trajeto longo o bastante para comportar riscos. Não se discute a índole da Polícia Federal; discute-se a realidade brasileira, onde “terceiros” sempre surgem como elos perigosos em cadeias de responsabilidade.
O senador relatou também algo mais grave: uma suposta ordem, de origem não esclarecida, proibindo que a família leve a alimentação prescrita por médicos. Se confirmada, trata-se de um absurdo que viola princípios básicos do cuidado com um detento. A dieta de Bolsonaro não é luxo; é necessidade médica. Impedi-la não apenas fragiliza sua saúde como abre margem para riscos desnecessários.
O ex-presidente tem recusado as refeições oferecidas desde sábado. Para muitos, isso parece atitude política. Para quem entende minimamente o contexto, é simplesmente o comportamento racional de alguém que sabe que não pode brincar com a própria saúde, e menos ainda com sua segurança.
Vivemos tempos em que a hostilidade política extrapolou a política. Bolsonaro se tornou símbolo, inimigo imaginário, catarse emocional para grupos radicais, militantes ressentidos e oportunistas de ocasião. E, em ambientes assim, a violência não depende de instituições, depende de indivíduos dispostos a tudo, os chamados “lobos solitários”.
Flávio Bolsonaro afirmou que o pai teme que possam “fazer alguma coisa” com a comida. À luz de casos nacionais, inclusive o da cozinheira cearense assassinada por não envenenar agentes de segurança, esse temor não parece descabido. Parece apenas prudente.
No meio disso tudo, Bolsonaro enviou um pedido direto aos presidentes da Câmara e do Senado, Hugo Motta e Davi Alcolumbre, para que pautem a anistia. Não é só movimento político; soa como alguém que sabe que precisa de proteção institucional imediata. E, para além da simbologia do gesto, há uma mensagem clara: Bolsonaro não confia no ambiente que o cerca.
Sua prisão preventiva, decretada após admitir ter supostamente danificado a tornozeleira eletrônica, se tornou palco de uma guerra política. As medidas cautelares já eram polêmicas; a narrativa sobre sua “periculosidade” elevou tudo a um nível perigoso, no qual a Justiça parece flertar com excessos que a própria democracia deveria repelir.
Bolsonaro não é santo. Não é vítima angelical. Mas nenhum detento, político ou não, pode ser exposto a riscos que o Estado brasileiro tem obrigação de prevenir. Se algo acontecer com Bolsonaro sob custódia federal, o dano institucional será irreparável, dentro e fora do país. E a História será implacável com quem deveria proteger, mas escolheu ignorar os sinais.
Neste momento, a responsabilidade coletiva não é defender Bolsonaro nem Lula. É defender o óbvio: a integridade física de qualquer preso é dever do Estado. Se o Brasil falhar nisso, o problema deixará de ser político e se tornará civilizatório.
E talvez, quando percebermos isso, já seja tarde.
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