
É preciso ter nervos de aço, ou a tal máscara de ferro psicológica que tanto se atribui ao “Conde de Monte Cristo brasileiro”, para suportar o que Jair Bolsonaro vem enfrentando. Um cidadão comum, submetido ao pacote de restrições que hoje recai sobre o ex-presidente, dificilmente manteria a sanidade intacta: privado da liberdade, impedido de receber visitas, isolado até dos próprios filhos, proibido de conceder entrevistas, sem direito pleno de defesa e ainda dependendo de um coquetel de remédios que alteram o sistema nervoso central.
Se isso não abala o espírito de um homem, nada mais abala.
E convenhamos: transformar um ex-chefe de Estado nesse tipo de laboratório psiquiátrico judicial não parece exatamente a “presunção de inocência” tão citada pelos manuais constitucionais.
O Brasil, terra onde condenados por corrupção comprovada já foram soltos, descondenados ou conduzidos com tapete vermelho para a prisão domiciliar, agora finge espanto diante do pedido da defesa de Bolsonaro por uma prisão domiciliar humanitária. Ora, se a clemência jurídica já foi generosa com quem assaltou cofres públicos, por que não estender o mesmo benefício a um ex-presidente cuja situação psicológica, segundo laudos médicos, despencou ladeira abaixo?
Neste domingo, Bolsonaro enfrentou ainda a famigerada audiência de custódia, mais um capítulo dessa saga turbulenta. Na sequência, sua defesa protocolou formalmente o pedido de prisão domiciliar humanitária, apresentando justificativas médicas, laudos, relatos clínicos e fundamentação jurídica sólida, exatamente como exige o devido processo legal.
A defesa foi direta: "Bolsonaro não tentou fugir, não tentou romper tornozeleira nenhuma".
O que houve, segundo os médicos, foi um episódio de confusão mental, induzido por remédios com efeitos colaterais conhecidos. Pregabalina, para quem não sabe, altera percepção, causa alucinações e embaralha completamente a noção de realidade. Um usuário em crise pode enxergar escutas onde há apenas plástico e bateria. Foi exatamente isso: não houve sabotagem da tornozeleira, houve um paciente desorientado.
Mas o Brasil é o país onde um vídeo viral vale mais do que um laudo, e onde a interpretação jurídica parece cada vez mais um exercício de criatividade. A narrativa oficial tenta pintar Bolsonaro como um fugitivo em potencial, quando, na prática, ele estava trancado em casa, sedado e com a mente embaralhada por interações medicamentosas.
A defesa apresentou laudos, justificativas, protocolos médicos. Pediu aquilo que já vimos ser concedido inúmeras vezes, até a criminosos de currículo vasto: prisão domiciliar humanitária. Nada mais, nada menos.
A pergunta que resta, provocativa, incômoda e inevitável, é simples:
Por que com uns a Justiça é mãe, e com Bolsonaro ela parece madrasta?
Enquanto isso, o ex-presidente segue sua via crucis moderna: sem visitas, sem telefone, sem rede social, sem contato com o mundo ao seu redor, sem voz, sem defesa, sem paz, e com uma saúde mental oscilando como um barco em mar revolto. Se já o compararam ao Conde de Monte Cristo, talvez seja hora de lembrar: lá, como cá, a prisão não era apenas uma cela. Era um método.
E o método, no Brasil de 2025, parece bem claro.
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