
O presidente Lula da Silva voltou a comentar aquilo que, segundos antes, jurou que nunca comenta: decisões da Suprema Corte. Disse em entrevista no G20, na África do Sul, que “não faz comentários sobre decisões do STF”, mas fez exatamente isso ao afirmar que Jair Bolsonaro “foi julgado”, “teve presunção de inocência” e que “todo mundo sabe o que ele fez”. A contradição já seria suficiente para constranger qualquer estadista, mas Lula nunca teve esse problema.
O que chama atenção, porém, é a desenvoltura com que o presidente tenta assumir o papel de comentarista da moral pública, como se fosse a figura mais honesta e isenta da República. Não é. Não pode ser. E não será. Lula é o único presidente brasileiro condenado por corrupção em três instâncias, que chegou a cumprir pena, insistiu em dezenas de recursos e só saiu da prisão graças a uma combinação de decisões revisionistas que nenhum outro réu comum jamais terá. Um processo que durou mais de cinco anos, passou por inúmeros tribunais e produziu sentenças unânimes, tudo isso convenientemente apagado da memória quando ele decide apontar o dedo para Bolsonaro.
Ao dizer que Bolsonaro teve presunção de inocência, Lula ignora o óbvio: o processo contra o ex-presidente é contestado por juristas de diferentes linhas, acumula nulidades gritantes, prazos atropelados, defesa cerceada e uma sequência de decisões que avançaram sem sequer garantir o acesso pleno aos autos. O julgamento foi rápido, muito rápido para padrões brasileiros, e montado em cima de uma narrativa que parece agradar apenas a quem governa e a quem julga.
A frase “todo mundo sabe o que ele fez” é emblemática. É a mesma fórmula que já vimos em repúblicas onde a verdade não importa: basta repetir uma frase muitas vezes até que ela se torne “oficial”. Mas, se cabe repetir algo, que seja a pergunta incômoda:
Qual crime, concretamente comprovado, Jair Bolsonaro cometeu?
Onde estão as provas robustas?
Onde está o contraditório pleno?
Onde está a ampla defesa que o Estado diz garantir?
Lula, como sempre, fala muito e explica pouco. É o velho hábito de discursar pelos cotovelos sem entregar substância, apenas alimentando uma narrativa que interessa ao sistema que hoje o sustenta e que, por coincidência, é o mesmo sistema que trabalha para enterrar Bolsonaro politicamente antes de 2026.
Ao final, Lula tenta encerrar o assunto dizendo que Bolsonaro “vai cumprir a pena que a Justiça determinou”. Talvez fosse melhor ter seguido sua própria recomendação inicial e não ter comentado nada. Porque cada frase dita revela o que ele tenta esconder: não há isenção possível quando o comentarista é alguém que deve sua liberdade não à Justiça em si, mas à conjuntura política que lhe devolveu os direitos.
E enquanto o presidente tenta parecer neutro, o país se faz a pergunta que Lula evita:
Estamos diante de justiça, ou de uma engenharia jurídica construída para eliminar um adversário incômodo?
A resposta, Lula não deu. E talvez nunca dê.
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