
Eu não consigo tratar como algo normal o que aconteceu neste sábado, dia 22. Não foi apenas a prisão de um ex-presidente; foi um ato pensado ao detalhe, carregado de simbolismo e exibido como demonstração de poder. Alexandre de Moraes já havia multado o partido de Bolsonaro em 22 milhões, número idêntico ao da sigla. Agora, a prisão no dia 22. À essa altura, só acredita em coincidência quem quer se enganar. Para mim, isso é mensagem. É humilhação pública cuidadosamente coreografada.
Eu lembro bem de como Bolsonaro surgiu. Depois das manifestações de 2013, que fizeram barulho e não mudaram absolutamente nada, o país estava esgotado, moral, política e economicamente. O PT dominava tudo: a máquina pública, as indicações ao Supremo, os cofres e até relações amistosas com ditaduras estrangeiras. No meio desse cansaço, um deputado esquecido começou a falar o que ninguém tinha coragem. Ganhou as redes, ganhou aeroportos, ganhou ruas. Virou o símbolo de um país que não acreditava em mais nada. E mesmo com toda a histeria criada pela esquerda que dizia que ele instauraria uma ditadura, Bolsonaro passou quatro anos sem praticar um único ato que apontasse para autoritarismo. Na prática, foi ele quem viveu sob limitações. Terminou o governo entregando os comandos militares conforme a vontade de Lula.
Agora, preso, Bolsonaro aparece não apenas como um político derrotado, mas como um homem marcado. Ele disse ter passado um “ferro quente” na tornozeleira eletrônica por curiosidade. Eu ouvi isso, mas sinceramente? Eu não compro essa explicação. Eu vejo desespero. Eu vejo um homem de 70 anos, perseguido por processos intermináveis, sufocado por decisões sucessivas, investigado por tudo e por nada, dormindo e acordando sob vigilância. Quando alguém chega ao ponto de encostar um ferro quente num equipamento que delimita onde ele pode ou não pisar, isso para mim não é “curiosidade”. Isso é o retrato psicológico de quem está quebrando por dentro. Se ele, que já sentou na cadeira mais poderosa do país está assim, imagina o cidadão comum quando o sistema resolver mirar nele.
E é justamente por isso que eu digo que eles não vão parar. A prisão de Bolsonaro não é o fim de nada; é o começo de tudo. Depois dele virão os políticos que o apoiam. Depois, os nomes que orbitam o campo conservador. Depois, comunicadores, influenciadores, vozes incômodas. E, no fim da linha, os eleitores, porque esse tipo de poder não se sacia. Autoritarismo nunca deu meia-volta. Autoritarismo avança. E avança sempre em silêncio, até o dia em que o país acorda e percebe que já não pode mais falar, nem discordar, nem existir politicamente fora da cartilha dominante.
É por isso que eu afirmo, sem hesitar: quando condenam um, condenam todos nós. E neste momento, olhando para o que está acontecendo, eu sinto que o Brasil inteiro está sendo arrastado para essa mesma cela, não fisicamente, mas institucionalmente, moralmente e politicamente.
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