
Por muito tempo acreditamos que os erros autoritários do passado eram lições aprendidas. Que as algemas do arbítrio, os porões do silêncio e as canetas que violam a liberdade haviam sido sepultadas com a redemocratização. Mas o dia 22 de novembro de 2025 nos prova o contrário. O país acordou sob a sombra de um poder que se fortaleceu não pela lei, mas pela intimidação.
Assistimos à ascensão de um magistrado que se autoproclamou xerife da República, acumulando para si funções que a civilização separou há séculos. Investigador, promotor, juiz e carcereiro. Como se Montesquieu jamais tivesse existido, ele não interpreta a Constituição, ele a substitui por suas convicções pessoais. E o faz com o aplauso de quem tem medo de ser o próximo perseguido. Ao confundir a figura do juiz com a do soberano, ele repete erros já denunciados por Montesquieu, quando alertou que todo aquele que concentra o poder de julgar com o poder de acusar torna-se tirano. Passaram-se séculos — e ainda insistimos em ignorar a lição.
A história do constitucionalismo moderno nasceu justamente para impedir esse despotismo de toga. Do Tribunal da Inquisição ao Comitê de Segurança Pública do Terror Jacobino, quando Robespierre decidiu que a lei era aquilo que ele julgava ser útil à Revolução, os resultados sempre foram os mesmos: medo, injustiça e ruína moral.
Hoje, vivemos no Brasil a contradição de ver um guardião da Constituição convertido em seu maior violador.
Tudo isso não nasce do nada.
A tragédia começou quando um sentimento nacional de injustiça foi tratado como crime. Milhões de brasileiros que não se sentiram representados pela eleição de 2022, não necessariamente porque seu candidato perdeu, mas porque não lhes foi permitido duvidar ou sequer perguntar, foram rotulados como inimigos do Estado. A dúvida virou delito. A angústia virou infração. A desconfiança popular, tão legítima quanto ancestral nas democracias, foi esmagada como rebeldia intolerável.
O resultado desse esmagamento não foi paz. Foi ressentimento. Foi desunião. Foi o governo visto como vingança. E vingança nunca é política, é sintoma de fraqueza transformado em método de poder. Qual o limite de uma sociedade que aceita que, por mera interpretação pessoal, um magistrado determine quem pode falar, protestar ou simplesmente existir politicamente?
Quando uma dona de casa, uma cidadã comum, sem outras armas além de sua indignação é encarcerada por uma frase escrita em tinta spray, resta claro que o Estado de Direito se transmutou em Estado de Medo.
Não se trata de proteger a ordem pública, mas de intimidar o dissenso.
O país vê sua liberdade sendo arrancada em pequenas frações, como quem puxa, fio a fio, o tecido da democracia, até que só reste a nudez da servidão.
Os que aplaudem hoje esse autoritarismo togado esquecem que a guilhotina jurídica nunca permanece voltada para os mesmos pescoços. A história é fértil em exemplos.
Mussolini, celebrado antes de ser exposto como tirano.
Stalin, idolatrado até que o stalinismo engoliu seus próprios defensores.
Getúlio Vargas, cujos instrumentos de exceção serviram depois contra seus próprios aliados.
Todo poder sem controle se volta, cedo ou tarde, contra quem o sustenta.
A perplexidade nacional diante da omissão das instituições também ficará registrada. Onde está o Parlamento? Onde está a Suprema Corte como colegiado? A Corte se cala ou assiste. Onde está a imprensa que deveria denunciar excessos, e não canonizá-los? A imprensa institucional prefere a conveniência à coragem. E onde estão os que juraram nos defender? O poder que deveria ouvir o povo decidiu desconfiar dele.
O silêncio cúmplice é, também ele, uma forma de violência.
É nesse apagão moral que tiranos florescem.
A História é implacável com os que confundem toga com trono, governo com revanche, lei com instrumento de medo.
Robespierre acreditou que a virtude justificava a guilhotina, até que a lâmina encontrou seu próprio pescoço.
Ditadores de ontem, aplaudidos por alguns, foram julgados pela posteridade como vergonha coletiva.
O destino dos que ultrapassam o limite constitucional não depende dos seus inimigos, mas da própria arrogância, porque o tempo é o juiz que ninguém controla. O Brasil não está condenado. Mas não será salvo pelo silêncio.
Só há duas possibilidades para nações em crise. Se ajoelham ou se levantam. E cada cidadão terá de escolher seu lado na História.
Hoje sabemos com clareza quem pretende governar pelo medo e quem deseja viver em liberdade. Hoje descobrimos que as leis, se não forem defendidas pelo povo, podem ser usadas contra ele.
Que a data de hoje, 22 de novembro de 2025 nunca seja esquecida. Essa data em que o país acordou assustado vá dormir desperto. Porque uma nação que não reage ao autoritarismo acaba merecendo o tirano que suporta.
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