
Um vídeo curto, compartilhado no X (antigo Twitter), reacendeu um debate que o Brasil insiste em empurrar para debaixo do tapete: a naturalização do crime. Na gravação, uma jovem, bem vestida, maquiada, dançando despreocupadamente em meio a um típico “baile de favela”, segura nas mãos nada menos que um fuzil, possivelmente um 5.56. A arma, símbolo máximo do poder bélico das facções, é empunhada como se fosse um adereço de festa.
A legenda que acompanha o vídeo, tão absurda quanto simbólica, afirma que a jovem seria “filha de vendedor de tacacá, filmada segurando uma metralhadora para defender ursos polares e girafas na Amazônia de ‘Berlim do Pará’”. Uma provocação direta às declarações do premiê alemão Friedrich Merz, que, durante a COP30, comparou a Alemanha à “beleza selvagem” do Brasil e insinuou que jornalistas estavam felizes por voltar para casa. Comentários que o prefeito de Belém classificou como “arrogantes e preconceituosos”.
Mas, ironias e memes à parte, a pergunta que importa é: onde estamos e como chegamos aqui?
Não há comprovação de que a cena tenha sido gravada em Belém, no Pará, aliás, sequer há garantia de que foi registrada no Brasil. Mas isso pouco importa. Porque o vídeo não choca por ser excepcional, mas por ser corriqueiro.
No Rio de Janeiro e em São Paulo, não é raro ver criminosos circulando com armas de guerra em festas, becos, vielas ou até à luz do dia. No Pará, embora menos comum, não há surpresa: o Estado vive há anos sob a escalada silenciosa de facções que se infiltram em bairros, presídios e comunidades.
Se o vídeo for brasileiro, é degradante.
Se não for, é igualmente útil como alerta, porque poderia ter sido gravado aqui, sem nenhuma dificuldade.
A jovem dançando com um fuzil expõe uma verdade incômoda:
O crime perdeu o medo. A sociedade perdeu a indignação.
E o Estado perdeu o controle.
A cena revela:
a ostentação do armamento pesado, que chega às mãos de jovens como brinquedos;
a sensação de impunidade, reforçada pela incapacidade de investigações;
a presença normalizada de facções, que dominam bailes, bairros e fronteiras;
a falência das políticas de segurança, fragmentadas, reativas e politizadas.
Quando uma festa popular se transforma em vitrine para armas de guerra, significa que o crime já não opera nas sombras, ele desfila, dança e grava vídeos.
Independentemente do local da gravação, o cenário exibido é familiar:
o Estado aparece como figurante, enquanto facções assumem o palco.
A polícia, que deveria ser a protagonista do combate ao crime, vira:
alvo de deboche,
refém de recursos escassos,
vítima de narrativas políticas,
e peça descartável em governos que tratam segurança pública como slogan eleitoral.
Enquanto isso, o crime não faz discurso: ele mostra poder real, em alta definição e viralizado em redes sociais.
A ironia final é que o debate surgiu por causa de declarações de um premiê europeu sobre o Brasil. Seria cômico, se não fosse trágico, que um comentário diplomático tenha sido respondido com uma imagem que, na prática, confirma o diagnóstico de decadência.
O caso, real ou não, serve de gatilho para uma verdade incontestável:
O Brasil precisa discutir segurança pública com seriedade, técnica e urgência.
Sem isso:
vídeos como esse vão continuar surgindo,
jovens continuarão a ser cooptados,
comunidades continuarão dominadas,
e o país continuará sendo visto, aqui e lá fora, como território onde o crime dança livre enquanto o Estado aplaude, impotente.
Confira o vídeo que viralizou no X:
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