
A tara da esquerda brasileira por financiar a ditadura cubana é algo que desafia a lógica, o bom senso e, sobretudo, o interesse público. Não é de hoje. Primeiro veio o Mais Médicos, um programa que, ao contrário da propaganda oficial, tinha uma função muito clara: injetar dinheiro fresco na ditadura de Havana, enquanto médicos brasileiros eram tratados como inimigos e cubanos eram importados sem transparência. O resultado? Processos, indenizações, denúncias trabalhistas, suspeitas sobre qualificações e uma conta que o Brasil paga até hoje. E agora, como se não bastasse, o governo da Bahia decidiu repetir o enredo, desta vez enviando R$ 21,5 milhões para formar estudantes na Escola Latino-Americana de Medicina (ELAM), em Cuba.
E a pergunta que ecoa, incômoda e inevitável, é: por quê?
Por que investir milhões num país estrangeiro, e num regime ditatorial, quando a Bahia possui universidades públicas de medicina que precisam desesperadamente de recursos? UEFS, UESC e UNEB mantêm cursos reconhecidos, com docentes qualificados e capacidade de expansão. Por que ignorá-las? Por que não fortalecer aquilo que é nosso?
A resposta não está na educação, na ciência ou na saúde: está na política. Está no velho fetiche ideológico que transforma Cuba em símbolo, totem, miragem. O governo de Jerônimo Rodrigues (PT) não financia apenas estudantes; financia uma narrativa. E, como sempre, com dinheiro público.
A ELAM, criada por Fidel Castro em 1999, já formou milhares de profissionais. Mas também acumulou críticas, inclusive de médicos baianos como Raíssa Soares, que lembram: a formação médica em Cuba não se compara à brasileira. Mesmo com carências, as escolas nacionais entregam ensino superior atualizado e baseado em evidências, algo que a ELAM, atolada em limitações estruturais, não consegue garantir com o mesmo rigor.
Estive em Havana por duas vezes, e essas viagens só reforçaram o abismo entre a propaganda oficial e a realidade dos serviços de saúde cubanos. Em uma das visitas, acompanhado dos saudosos médicos Newton Nunes e Pedro Moreira, além do então deputado Manin Rêgo, percorri um hospital em Cárdenas, instalado em um prédio que já foi penitenciária do governo Fulgêncio Batista, uma unidade extremamente precária, bem distante do “modelo de excelência” vendido pela esquerda.
Em Havana, acompanhei Pedro Moreira à ELAM e ao Centro Internacional de Restauração Neurológica (Ciren), e encontrei a mesma cena: infraestrutura deteriorada, equipamentos antigos, salas improvisadas e críticas veladas de profissionais e acadêmicos, que reconhecem — em voz baixa, que a ilha vive mais de mito do que de medicina. Seja nos hospitais, seja na escola de medicina, o que se vê é simples: muita propaganda, pouca entrega.
Em minha primeira estada em Cuba, quando Fidel Castro ainda estava vivo, vivi uma experiência que jamais esqueceria, e que, se me fosse contada, eu talvez duvidasse por toda uma vida. Num passeio casual por Havana, pude ver com meus próprios olhos a deterioração completa daquilo que a propaganda tenta vender como “potência médica”. Postos de saúde decadentes, com equipamentos sucateados, revelavam um sistema abandonado. E as farmácias? Visitei pelo menos cinco. Em uma delas, a cena parecia saída de um filme do início do século passado: prateleiras de madeira escura, remédios empilhados de forma improvisada, frascos de vidro escurecido que transmitiam uma mistura de angústia, tristeza e profunda decepção. Uma realidade tão brutal que só acreditamos porque vimos.
E é por esse conjunto de carências e necessidades que o governo da Bahia vai desembolsar mais de R$ 21 milhões, para estudantes selecionados sob critérios duvidosos, enviados para uma doutrinação na ilha que, diferente do hospital de Cárdenas, continua no século XXI como a maior prisão a céu aberto do planeta.
Para piorar, o edital baiano inclui critérios alinhados mais ao projeto político do que ao educacional: comprovar atuação em movimentos sociais como MST, residir em áreas rurais e se comprometer a trabalhar dois anos na Bahia após a validação do diploma, que, não é automática.
O argumento oficial é nobre: levar médicos a regiões carentes.
Mas o caminho é tortuoso, caro e ideológico.
Por R$ 21,5 milhões, o governo poderia fortalecer cursos existentes, criar vagas, ampliar hospitais, financiar residência, comprar equipamentos, melhorar a saúde pública na Bahia, sem enviar recursos a uma ilha caribenha que vive de propaganda.
No fim, o que o governo oferece não é solução, é sintoma.
Sintoma de uma esquerda que, décadas após a Guerra Fria, ainda se ajoelha diante de Havana, como se a ditadura cubana fosse modelo, farol ou destino inevitável da humanidade. Não é. E nunca foi.
O povo baiano não quer intercâmbio ideológico.
Quer médico no posto, ambulância funcionando, hospital equipado.
Quer investimento real, local e concreto, não nostalgia revolucionária financiada com dinheiro público.
E até que essa lógica mude, veremos a mesma história se repetir:
governos enviando milhões para Cuba enquanto hospitais baianos lutam por respiradores, insumos e profissionais.
A pergunta persiste, teimosa: a quem interessa esse investimento?
Ao povo da Bahia, certamente não.
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