
A Proclamação da República, em 1889, nasceu sob o discurso de renovação política e combate aos supostos “excessos” da monarquia. No entanto, uma das primeiras medidas adotadas pelos novos governantes republicanos foi justamente garantir a si mesmos um aumento salarial generoso, contrastando com o exemplo austero do imperador Dom Pedro II.
O monarca, que reinou por quase meio século, vivia de forma simples. Sua dotação (salário) anual não era reajustada havia décadas, e boa parte do dinheiro era utilizada em projetos culturais, bolsas de estudo e até doações pessoais. Ao contrário de reis europeus, Pedro II cultivava a imagem de soberano despojado, muitas vezes se vestindo de maneira modesta e evitando ostentação.
Com a queda da monarquia, os líderes republicanos não seguiram a mesma linha. Logo nos primeiros anos do novo regime, o presidente Marechal Deodoro da Fonseca e seus ministros fixaram salários cerca de 50% maiores do que os valores destinados ao imperador. A justificativa oficial era alinhar o país a modelos republicanos modernos, mas na prática a medida gerou críticas sobre contradições da “nova ordem”.
O contraste era gritante. O governo que prometia cortar privilégios terminou ampliando seus próprios rendimentos, enquanto acusava a monarquia de ser um peso financeiro para o Brasil. Para muitos historiadores, esse foi um dos primeiros sinais de que a República nascente carregava vícios semelhantes ou até piores aos que dizia combater.
Mais de um século depois, o episódio segue como símbolo da ironia histórica: a deposição de um imperador austero, que não aceitava aumentos salariais, abriu caminho para governantes que, sob o manto da modernidade republicana, não hesitaram em garantir ganhos imediatos para si mesmos.
No fim das contas, eu não faço ideia de como seria o Brasil se a monarquia não tivesse caído lá atrás. Não sei se ela teria resistido até hoje, não sei se seríamos tão prósperos quanto outras nações monárquicas que seguem firmes e estáveis. Mas de uma coisa eu tenho certeza absoluta: não estaríamos nesse país cheio de desvarios, decrépito, uma verdadeira anomalia institucional. Não viveríamos sob esse regime torto, na prática autocrático, comandado por meia dúzia de togados fazendo acordos de conveniência com o presidente e seu partido. É duro admitir, mas trocamos um imperador austero por uma república que virou refém dos próprios vícios.
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