
A nova fase da Operação Sem Desconto não apenas confirmou suspeitas antigas — ela escancarou a participação direta do ex-presidente do INSS, Alessandro Stefanutto, no gigantesco esquema de desvios contra aposentados e pensionistas. Segundo a Polícia Federal, Stefanutto recebia até R$ 250 mil por mês em propina paga pela Conafer, uma das entidades usadas para aplicar descontos fraudulentos em benefícios previdenciários. As mensagens interceptadas, planilhas apreendidas com operadores financeiros, ordens de repasse sem comprovação de filiação e movimentações incompatíveis com sua renda revelam que o ex-presidente não apenas sabia do esquema — ele era parte dele.
De acordo com a PF, o ex-presidente do INSS facilitava, blindava e autorizava procedimentos que permitiam às associações continuar impondo descontos ilegais aos beneficiários. O papel de Stefanutto incluía:
Não barrar convênios suspeitos mesmo após alertas internos e externos;
Autorizar liberações de repasses sem verificar vínculos reais dos segurados com as associações;
Garantir estabilidade ao grupo criminoso dentro do INSS, indicando e protegendo servidores alinhados ao esquema;
Dificultar auditorias e retardar medidas corretivas, o que permitiu a continuidade das fraudes;
Ser o elo político entre empresários, associações e alas do governo, segundo a PF.
Em troca, recebia mensalmente o equivalente a um “salário paralelo” de R$ 250 mil, pago clandestinamente – um valor absolutamente incompatível com sua remuneração pública.
A investigação indica uma rede de beneficiados, onde diretoria do INSS, operadores, empresários e associações dividiam o saque mensal. A PF mapeou repasses para:
Vigílio Filho, ex-procurador-geral do INSS, envolvido em pareceres que “legalizavam” convênios;
André Paulo Felix Fidelis, ex-diretor de Benefícios e Relacionamento com o Cidadão;
Tiago Abraão Lopes, diretor da Conafer e operador financeiro do grupo;
O “Careca do INSS”, Antônio Carlos Antunes Camilo, já considerado um dos maiores articuladores do esquema;
Empresários ligados à estrutura que falsificava filiações e realizava a lavagem do dinheiro.
Via Conafer, entre 2017 e 2023, R$ 640 milhões foram desviados — e o total estimado pela PF é ainda mais assombroso: até R$ 6,3 bilhões podem ter sido roubados de aposentados.
O esquema seguia um roteiro industrial:
Falsificação de fichas de filiação de aposentados;
Inserção de dados fraudulentos nos sistemas do INSS com ajuda de servidores;
Cobrança de mensalidades falsas diretamente do benefício da vítima;
Lavagem do dinheiro via empresas de fachada, associações e operadores;
Distribuição das propinas entre dirigentes, servidores e articuladores políticos.
Documentos indicam que Stefanutto era informado da existência dos repasses mensais, autorizava a continuidade dos convênios e tratava internamente qualquer investigação como “inconveniente”.
Na mesma operação que prendeu Stefanutto, foram detidos:
Antônio Carlos Antunes Camilo, o “Careca do INSS”;
André Paulo Felix Fidelis, ex-diretor de Benefícios;
Virgílio Antônio Ribeiro de Oliveira Filho, ex-procurador-geral do INSS;
Thaisa Hoffmann, empresária, esposa de Virgílio;
Vinícius Ramos da Cruz, presidente do ITT;
Tiago Abraão Ferreira Lopes, diretor da Conafer;
Cícero Marcelino de Souza Santos, empresário ligado à Conafer;
Samuel Chrisostomo do Bonfim Júnior, também ligado à Conafer.
A prisão do ex-presidente do INSS preocupa políticos, empresários e dirigentes de entidades que mantiveram relações próximas com ele. Investigadores afirmam que Stefanutto conhece a estrutura completa do esquema, inclusive:
intermediários;
operadores financeiros;
políticos que apadrinharam convênios;
nomes do governo que interferiram em processos internos.
A PF não descarta novas prisões e aprofundamento sobre envolvimento político, especialmente porque Stefanutto era indicado do presidente Lula e mantinha trânsito livre em gabinetes da Esplanada.
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