
Nos anos finais da década de 1980, o estado ainda respirava os ares da chamada Nova República, mas, no Piauí, o poder continuava nas mesmas mãos de sempre. O comando político estava dividido entre dois caciques: Hugo Napoleão, herdeiro da tradição udenista e figura de influência nacional pelo antigo PFL, e Lucídio Portela, expoente do PDS e irmão do ex-Ministro da Justiça Petrônio Portela. Entre eles, havia uma convivência de conveniências, marcada por pactos efêmeros e rompimentos calculados.
O governador Guilherme Melo, vice que assumira o cargo após a renúncia de Freitas Neto que deixara o Palácio de Karnak para disputar o Senado, representava a continuidade desse bloco de poder. A aposta das elites era o deputado federal Átila Lira, técnico respeitado, gestor eficiente, homem de gabinete, que reunia todas as credenciais de um bom administrador menos uma: o carisma popular.
A eleição que virou o jogo
Era a primeira eleição com a novidade do segundo turno, e o favoritismo de Átila parecia inabalável. No primeiro turno, a vitória foi larga. O adversário, Mão Santa, médico e ex-prefeito de Parnaíba, era tratado com desdém pelas oligarquias do estado um “candidato folclórico”, diziam, limitado a seu reduto no litoral e sem estrutura partidária.
O Piauí ainda era território dominado pelos velhos coronéis do voto. A coligação governista elegeu quase tudo: os dois senadores (Hugo Napoleão e Freitas Neto), oito dos dez deputados federais e vinte e dois dos trinta estaduais. O mapa político parecia decidido e a soberba, consolidada.
Mas o que as elites ignoravam era o movimento que se formava por baixo. Enquanto os poderosos descansavam à sombra da vitória parcial, Mão Santa percorria feiras, praças e povoados, falando a linguagem simples que o povo entendia. Transformou-se no símbolo de um “antiestablishment” piauiense, mesmo que involuntário.
Quando o segundo turno chegou, o impossível aconteceu: as pesquisas começaram a inverter. O candidato do povo, ridicularizado pela elite política começou a crescer, e cresceu até vencer — com uma diferença maior do que aquela que perdera no primeiro turno.
O resultado foi um terremoto político. O primeiro tremor nas bases politica do Piauí deu-se após apertada vitória de Alberto Silva sobre o então Deputado Federal e Prefeito da Capital Freitas Neto em 1986. Alberto Silva conseguiu rachar a base de sustentação do condomínio politico PFL /PDS que unida mantinha o poder no estado, fechando chapa majoritária com Lucídio Portela como seu vice. Em 1994, pela segunda vez, o domínio absoluto de PFL e PDS era quebrado nas urnas. Foi ali que de fato se iniciou, sem que ninguém percebesse, o longo processo de desintegração das elites políticas tradicionais do Piauí.
O governo Mão Santa e o ressentimento das elites
Com o PMDB no poder estadual, a oposição se reorganizou em torno do ressentimento. Ainda assim, Mão Santa, com seu estilo teatral e populista, conseguiu conectar-se a um sentimento de revolta silenciosa contra o mando dessas lideranças tradicionais. Em 1998, enfrentou novamente seu principal adversário: Hugo Napoleão, então senador e tido como imbatível.
A campanha foi simbólica. Enquanto Hugo mantinha a postura aristocrática dos velhos tempos, Mão Santa abriu os portões do Palácio de Karnak para carroças e jumentos — uma encenação popular que, à sua maneira, escancarava o abismo entre governantes e governados. Foi o segundo recado das urnas às elites piauienses: o povo não votava mais por obediência.
Mas o velho sistema não se conformou. Em um movimento que misturou cálculo jurídico e vingança política, Hugo Napoleão conseguiu, nos tribunais de Brasília, a cassação do mandato de Mão Santa, quase três anos depois de iniciado o segundo mandato. Retornou ao poder não pelo voto, mas pelo tapetão.
Esse gesto, embora parecesse uma vitória, selou o destino do grupo: o povo não perdoou. O ressentimento popular abriu o espaço simbólico que faltava para a ascensão de um novo discurso — o da “moralidade” e da “mudança” encarnadas pelo Partido dos Trabalhadores.
O PT, que até então era uma legenda de militância estudantil e sindical com menos de 20% dos votos em Teresina, passou a ser visto como alternativa moral ao cansaço das velhas oligarquias. O caminho estava pavimentado.
O que viria a seguir — a consolidação petista, o domínio absoluto do poder estadual e a captura institucional do Estado — foi consequência direta daquele ciclo de arrogância e autossabotagem das elites que acreditaram poder governar sem o povo.
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